domingo, 20 de novembro de 2011

Belo Monte: Mais uma gota d'água em um oceano de bobagens

Já escrevi um texto sobre esses cidadãos que aderem a qualquer causa que aumente sua publicidade. A causa da vez aparentemente é ser contrário à usina de Belo Monte. Como eu falei antes, é a Síndrome de Bono, que se alastra cada vez mais rapidamente na classe artística. Apesar de ser altamente contagiosa, ela  infelizmente  não leva à mudez. A moda du jour nas redes sociais é o tal Movimento Gota D'Água (com essa grafia estranha mesmo). Está fazendo o maior sucesso, pelo número de pessoas que adoram essa sandice no facebook (quando eu vi pela primeira vez, 15 mil, quando parei de xingar, 120 mil, agora 350 mil). 
E o que é esse tal movimento? Se formos ver a produção de argumentos deles em seu próprio site, ela é bem escassa, exceto pela capacidade de mobilizar os reais especialistas em questões ambientais: atores.
Como eu não tenho produtores nem roteiristas pra prepararem meus textos, seguirei fazendo o que sempre faço, algo naquele velho estilo perguntas e respostas. Cito o que é falado no vídeo que eles postaram e respondo. Sou obrigado a admitir que somente transcrevi uma parte do que foi falado no vídeo. Transcrevê-lo totalmente seria legitimar algo que não merece ser legitimado.

Um pequeno Q&A
Você já ouviu falar da Hidrelétrica de Belo Monte?
Sim, e não só dessa. Já trabalhei em mais hidrelétricas que você já trabalhou em novelas.
Você já foi à Amazônia?
Sim.
Você sabe o que quer dizer "energia limpa"?
Sim, e você?
Desenvolvimento sustentável? Já ouviu falar?
Sim, já ouvi falar disso.
O que eu tenho a ver com isso? 
Não sei nem se você conhece o conceito. Sinceramente, acho que você não faz a mínima idéia do conceito, e fica aí vomitando bobagens na internet.
Mas eu pago meus impostos em dia, eu reciclo o meu lixo, eu ensino meu filho a respeitar o próximo.
Bom pra você. Eu também pago um absurdo em impostos. Como não tenho filhos, tento ensinar uma ou duas coisas para vocês. Minha melhor lição: leiam mais.
Eu ainda tenho que me preocupar com uma hidrelétrica no Pará?
O mundo seria melhor se você se focasse em seu trabalho.
Olha só, se não fizer a hidrelétrica de Belo Monte, não vai ter energia.
Quem falou isso, seus bobocas? A presidanta que vocês apoiaram durante a campanha? Acreditem no que quiserem mas vejam as duas dicas acima: leiam mais e foquem em seus trabalhos.  Energia existirá, porém será de alguma outra fonte (esse artigo trata do assunto), e já adianto: não será das fontes bonitinhas que vocês querem (solar e eólica) e sim de combustíveis fósseis ou termonuclear. 
Se não tiver energia, como é que eu vou ver televisão pra assistir minha novela? 
Eu não assisto novela. Prefiro ler e pesquisar sobre minha área de conhecimento. Deve ser por isso que eu não sei quem vocês são, e vocês não entendem droga nenhuma (escrevi "droga" por educação) sobre hidrelétricas. Assim como eu não entendo de neurocirurgia. A diferença é que eu não opino sobre neurocirurgia. Já atores...
Gente, não dá pra ficar sem luz, eu sou a pessoa mais conectada!
Use sua conexão para entrar em alguma livraria virtual e comprar uns bons livros. Eu sugiro os desse link. Não se esqueça de lê-los depois.

Não sei se esse monte de perguntas no início do vídeo têm o intuito de testar se alguém é qualificado o suficiente pra ter uma opinião sobre Belo Monte ou não, mas acho que passei no teste. Eu queria ver as respostas desses atores para as mesmas perguntas que eles fazem.

A questão do financiamento
Além de todo esse apelo exaltado, uma questão que é levantada no vídeo é que grande parte do financiamento da hidrelétrica virá do BNDES. Apesar de eu não concordar com isso (acho, essencialmente, que precisamos de menos Estado na economia) essa é uma das funções do banco, não? Financiar obras de infraestrutura é uma das, senão a função mais importante do BNDES. 
Eu posso bater no peito e falar que eu nunca usei dinheiro público para me sustentar. Não trabalho para o poder público, apesar de ajudar a sustentá-lo. Já os atores do vídeo, podem dizer o mesmo? Quantas peças de teatro deles foram financiadas com dinheiro do poder público? Quantos filmes deles foram feitos com auxílio de estatais, ANCINE, Ministério da Cultura? Eles têm Lei do Audiovisual, Lei Rouanet e todo o mais, e você paga a conta. Em resumo, usar dinheiro público para sustentá-los é certo; mas usar financiamento público para investir em infraestrutura que beneficiará toda a população é errado. 

O desmatamento e os povos indígenas
Já tratei desses assuntos em outro texto, por isso não vou me repetir. Contudo, o blog do Coturno Noturno traz um dado interessante, que segue abaixo:
um bando de abobados do elenco da Rede Globo diz que 640 km2 da Floresta Amazônica serão inundados. Sabem qual o tamanho da Floresta Amazônica? 6.000.000 de quilômetros quadrados. Portanto, a área inundada representa pouco mais de 0,01% da área total. 

O Fator de Capacidade
Os atores também "argumentam" que a usina vai gerar em média um terço de sua capacidade total. Esse conceito é conhecido na área técnica como "Fator de Capacidade", e é a razão entre a energia média gerada e a potência instalada de uma determinada usina. Por exemplo, se uma usina possui Potência Instalada de 100MW e Fator de Capacidade de 0,57, ela gera em média 57 MWh. No Brasil, as usinas a fio d'água, como é o caso de Belo Monte, tem um fator de capacidade entre 0,55 e 0,65. Outras usinas, que possuem reservatório com regularização (que acumulam um volume d'água em seu reservatório, em termos leigos) possuem fatores de capacidade maiores. Esse era o caso de Belo Monte. Por pressão dos ambientalistas, Belo Monte foi alterada para um regime de operação a fio d'água. Então não reclamem disso, por favor.
Querem uma usina com fator de capacidade alto? Então vamos fazer termoelétricas a combustíveis fósseis. Essas podem gerar energia a plena capacidade o tempo todo, praticamente parando somente para manutenção.  
Outro ponto interessante é que no Brasil, o fator de capacidade das usinas eólicas, que são a vedete dos ambientalistas, gira em torno de 0,3 (apesar de haver séries históricas muito pequenas, o que, no futuro, pode diminuir esse número). Na Alemanha, a média é de 0,17. Já viram algum ator reclamar disso?

Concluindo
Por que devemos confiar em engenheiros, biólogos, geólogos e outros profissionais da área ambiental quando os atores entendem tanto ou mais de meio ambiente e energia elétrica que qualquer profissional da área? 
Assistindo os vídeos, e levando em consideração a convicção com que os atores (os poucos que reconheço, pois admito que a maioria ali eu desconheço) se pronunciam sobre questões ambientais,  eu estou sinceramente disposto a demitir todo mundo nos órgãos ambientais e substituir os técnicos por atores. Eles decidem muito mais rápido, são mais convictos, e em menos de dois dias mobilizam uma galera pra apoiá-los. E o melhor: vão economizar uma grana dos empreendedores, pois estes não precisarão gastar dinheiro fazendo estudos. Afinal os atores leram o EIA da usina? Analisaram o projeto?
Entendo que cada um têm o direito de se expressar livremente, e acho válido que as pessoas tenham uma opinião formada. Defendo que os atores possam opinar sobre o que quiserem. Porém eles fariam um trabalho muito melhor se discutissem Brecht, Beckett ou Shakespeare ao invés de se meterem em algo que não entendem. 

3 comentários:

  1. Caro Davi, vc se formou onde? Na Ufsc?

    ResponderExcluir
  2. Vc esta muito mal se vc ainda esta num mundo de especialistas: eu não tenho que entender de armas biológicas para saber que elas são devastadoras ... Se informe sempre e consulte sempre uma segunda, terceira opinião... Internet ajuda e tem boas fontes... Não dê uma de avestruz... Não tem ninguém inocente nesse mundo: quantos produtos vc tem em casa feitos na China? Vc pode ser cúmplice de trabalho escravo...

    ResponderExcluir