quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Desconstruindo uma mentira ambientalista

Como praticamente metade do mundo que têm acesso à internet, eu também tenho um perfil no facebook. Lá, uma das minhas maiores diversões (além de participar de grupos como o excelente grupo de discussão sobre o Código Florestal) é ver as campanhas que o pessoal compartilha. Desde pérolas como os professores pedindo condições "diginas" de trabalho (professor analfabeto deve ser demitido, na minha opinião) até as milhares (sério) de vezes que vejo algo sobre animais perdidos, as redes sociais em geral e o facebook em particular viraram terreno fértil pra todo tipo de campanhas ou defesa de quaisquer barbaridades. Antes das redes sociais, quando essas mensagens só chegavam por e-mail, isso era conhecido como spam
Uma das melhores que vi, contudo, foi uma sobre Belo Monte. Como aconteceu desde que se declararam as intenções de implantar a usina, os protestos continuam. E pra não variar, o que menos acontece é uma discussão científica séria. Acho que todos de vocês que estão no facebook já devem ter visto esse post pelo menos uma vez: 
Pra quem não viu, é isso aí que falam de Belo Monte
Mentiradas ponto a ponto
O texto da mensagem me divertiu muito mais do que normalmente pois é uma aula prática do que Schopenhauer quis demonstrar em seu livro "Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão" (eu tenho essa edição). Duvido que um texto tão pequeno mostre de forma condensada tantos dos estratagemas que Schopenhauer apresenta no livro. Portanto, comentarei-o em partes.
"O cacique Raoni chora ao saber que Dilma liberou o início das construções de Belo Monte,
O post mostra nosso maior especialista silvícola em abraçar celebridades precisando de uma causa, o cacique Raoni, supostamente chorando ao saber da construção de Belo Monte. Pra começar, não há uma única indicação, uma única notícia de discussão ou audiência sobre Belo Monte que reproduza essa imagem, que por sinal, não possui qualquer crédito. No mais, falar que "Dilma liberou o início das construções" é admitir que não se entende nada sobre licenciamento ambiental. Com todos os problemas do licenciamento ambiental no país (vide praticamente metade dos textos desse blog) felizmente ainda não foi instituído o licenciamento ambiental por decreto presidencial.
mesmo após cartas dirigidas a ela que foram ignoradas, e ainda mais de 600 mil assinaturas que foram igualmente ignoradas.
Esse povo não entende o funcionamento da democracia. Se a presidente da república decidisse baseada no número de cartas que recebe, então a HP seria o maior lobista do país. E quanto às 600mil assinaturas? Respeito o fato de se coletarem assinaturas para defender alguma causa e mostrar à classe política que aquela causa têm apoio popular (por exemplo, o Voto Distrital). Contudo, vale lembrar que ao contrário do caso do Voto Distrital, o que se faz nesse caso é desinformar, ao contrário de informar as pessoas sobre o que elas estão apoiando. Mais adiante voltarei a esse ponto. 
Foi decretada a sentença de morte dos povos do Xingu.
Eu não sei vocês, mas eu já vi várias bacias com hidrelétricas e índios. Até onde sei, em nenhum lugar eles foram dizimados pela existência dos aproveitamentos hidrelétricos. (N. do autor: Nem sei porque me dignei a responder essa)
Belo Monte seria maior que o Canal do Panamá,
Eu não sei de onde partiu a proposta de tomar o Canal do Panamá como referência para licenciamento ambiental. Os militontos ambientalistas vão propor um tratado internacional dizendo "Obras maiores que o Canal do Panamá não podem ser licenciadas"? Pela irrelevância no contexto, nem vou pesquisar as dimensões do canal.
inundando pelo menos 400.000 hectares de floresta,
Mentira! A área do reservatório de Belo Monte é aproximadamente 520km², ou seja, 52.000ha, bem menos que o falado no post. Obviamente a totalidade dessa área (520km², não a ilusão postada anteriormente) não é de florestas, devendo ser descontados para cálculos de supressão de vegetação o próprio leito do rio, além de áreas já antropizadas, como cultivos agrícolas.
expulsando 40.000 indígenas e populações locais
Mentira deslavada! Gastei 15 minutos do meu tempo e peguei os dados das Terras Indígenas (TIs) da FUNAI. Selecionei todas as TIs a uma distância de 100km de Altamira (e Altamira é um município gigante!). São 26 TIs. A soma da população dessas TIs segundo o dado da FUNAI é de 6.547 pessoas. Lembro que essa é a população total das TIs a uma distância de 100km de Altamira. Não necessariamente todos serão atingidos pela hidrelétrica. Aliás, mesmo que todas as 26 TIs a uma distância de 100km de Altamira fossem atingidas, e que todos os indígenas precisassem ser relocados, ainda assim não chegaria nem perto dos 40 mil que o post fala.
e destruindo o habitat precioso de inúmeras espécies
Eu não entendo muito das espécies amazônicas e seus hábitats, mas entendo de lógica, de método científico, e argumentação. E sempre que eu vejo alguém usar o termo "inúmeros" ou similares, começo a desconfiar que o argumento não está respaldado em nenhum dado concreto. Além disso, o termo correto não é "destruindo", e sim alterando. Algumas espécies podem precisar se realocar após a implantação da usina, outras (especialmente espécies aquáticas) perderão seus locais de reprodução, alimentação ou abrigo. Longe de mim ser contra os bichinhos, mas vamos colocar as coisas na sua devida proporção: segundo o sistema DETER (Detecção de Desmatamento em Tempo Real) do INPE, entre 01/01/2003 e 01/01/2008 houve alertas de desmatamento de 2199.53 km² (ou 219.953 ha) somente no município de Altamira, e isso antes de qualquer obra de Belo Monte. Onde estavam os defensores dos hábitats dos bichinhos naquela época, ou antes disso, quando o DETER não existia? Ao menos agora haverá um benefício para toda a população, e não somente para os que desmatam ilegalmente.
-- tudo isto para criar energia que poderia ser facilmente gerada com maiores investimentos em eficiência energética."
Isso é uma junção de ignorância e má-fé.  Não sei de onde eles tiraram a idéia que eficiência energética significa geração de energia elétrica. Eficiência energética é redução de consumo, não aumento de geração. Geração de energia elétrica continua sendo... geração de energia elétrica. Aliás, como curiosidade: 0,25% da receita operacional líquida das distribuidoras de eletricidade obrigatoriamente vai para programas de eficiência energética. Só pra lembrar, você paga a conta.

Desinformação
Alguma alma caridosa, que realmente acredita que todos só querem o bem mas não sabem onde se informar, pode dizer que estou sendo malvado com os ecochatos e biodesagradáveis ou estou trabalhando com informações que não são de domínio público. Não. Esses militontos simplesmente inventam dados espúrios. A prova? Para quem quiser realmente saber os dados sobre a usina, todos os estudos para o licenciamento ambiental estão disponíveis aqui no site do IBAMA. Os dados da tramitação da usina junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) podem ser visualizados aqui.
Em resumo, tanto o processo de licenciamento ambiental (disponível no link acima) quanto os estudos de engenharia aprovados pela ANEEL são públicos. Basta fazer uma solicitação ao Centro de Documentação da ANEEL que eles mandam os dados pra você.
Eu levantei todos esses dados e escrevi o texto acima em menos de uma hora (aproveitei trechos de meus debates no facebook). Então não pode ser tão difícil passar informações embasadas. Quem passa informação errada está querendo usar os outros como massa de manobra.

Finalizando
Cada um pode ter sua opinião, e pode fazer propaganda do que bem entender, porém convém ter opiniões bem informadas e não propagar textos apócrifos, sem a mínima credibilidade. Fazendo isso não se defende as florestas, os povos tradicionais nem o meio ambiente, e só os interesses de grupos que, seja qual forem seus objetivos, precisam mentir para alcançá-los, o que já não é bom sinal.

4 comentários:

  1. Meu caro, nem sei que você é (talvez seja opção sua manter o anonimato), mas já me filiei ao seu blog. Parabéns. As suas idéias são muito claras, e as posições bem fundamentadas.

    Precisamos de mais cérebro e menos bom-mocismo para analisar as questões ambientais.

    Um abraço

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  2. Petterson, ainda estou estou estudando as possíveis implicações que deixar o anonimato pode trazer para minha vida profissional, mas é sempre bom contar com o apoio dos leitores. Esse post virou o campeão de visitas em menos de 12 horas depois da publicação. Se tiver algo a compartilhar comigo e com os outros leitores, fique a vontade.

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  3. A princípio sou contra a instalação de Usinas deste porte pelo impacto que elas causam e em especial esta, pela região escolhida. Mas se permitir ser enganado, mas que seja por algo de seu interesse é uma posição muito triste de se assumir, é se permitir ser manobrado.
    Alguns dados consegui conferir, outros não tive acesso devido a problemas nos sites oficiais, mas no geral o texto é ótimo.
    Principalmente por não se posicionar a favor ou contra a contrução, mas por esclarecer os fatos.

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  4. A lavagem cerebral é tão grande que mesmo que se exponha os fatos, os ecochatos não conseguem ler. São fanáticos pela propaganda "Coca-cola" de serem sustentáveis e politicamente corretos. Temos o SWU e pega super bem colar um adesivo de ONG no carro. Os dados estão lá, pelo menos pesquisem antes de soltar esse blablabla de Greenpeace, animaizinhos sem casa e índios despejados.

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