sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Quem é nazista?


Mal publiquei o texto em que falava que os democratas do "Movimento Arena Não" flertam mais com a ditadura que o pessoal da Arena, e o que acontece? Vejam na figura abaixo:

Uma campanha para queimar "literatura subversiva"?? Notem que a postagem, como o próprio autor fala, só foge "um pouco do tema do movimento". E isso vindo exatamente de quem? Daqueles que acusam o pessoal da Arena de nazistas e fascistas. Me lembrei dessa outra foto de um pessoal que queimava publicações com as quais não concordavam. 

Alemanha, 1933.
Uma dica: o líder desses da foto acima se chamava Adolf. 
Quem é o nazista agora?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Acuse-os do que você faz

Hoje descobri que existe na internet um tal "Movimento Arena Não". Ele é uma reação à criação (ou recriação) da Aliança Renovadora Nacional, ou ARENA, partido político da época dos governos militares do século passado. 
Já o pessoal do Movimento ARENA Não diz que a fundação do partido é uma "agressão psicológica" às vítimas do regime militar. Além disso, os idealizadores dizem que são apartidários, que seu "partido é a democracia", como pode ser visto na figura abaixo:

Descrição do Movimento ARENA Não, direto de sua página no facebook.

Olhando o estatuto do partido, eu não concordo com um monte de pontos que eles defendem, porém acho salutar que existam mais partidos de direita. Pessoalmente, concordo mais com os libertários, apesar de não ser filiado a nenhum partido. Se alguém quiser dividir ainda mais o já saturado espectro esquerdista, que crie mais partidos de esquerda também. A divergência é característica de democracias. E convenhamos, esse papo de "agressão psicológica" somente pela existência de um partido com o nome ARENA parece coisa do pessoal que defende a PLC 122 (com respeito a todos os gays por aí que não são anti-democráticos). 
Quando se fundaram os trocentos partidos de esquerda do país (praticamente todos), não houve qualquer reação. Nenhuma manifestação. Ninguém quis proibir que esses partidos existissem, apesar de alguns partidos se dedicarem mais ao roubo de dinheiro público que à representação de uma parcela da população. Afinal, democracia é legal para os "companheiros". Mas quando é para a direita, não serve, né?

As críticas à presidente
Alguns criticam o partido simplesmente pelo fato da presidente e fundadora da nova ARENA, Cibele Bumbel Baginski, ser jovem demais (23 anos), apesar de ter maioridade legal para fundar o partido. Não sei (e admito) se a tal menina não possui bagagem suficiente para compreender exatamente o que ela está fazendo ou se ela é um gênio da política. Porém, ela tem todo o direito de fundar um partido com o nome que quiser e bem atender, desde que atendidos os requisitos legais. Ainda que eu, você ou os esquerdinhas não concordem com nada que o partido propõe.
Gisele também foi criticada pois é bolsista do Prouni. Na "argumentação" de alguns energúmenos, ela não poderia ser contra cotas se é beneficiada por um programa governamental que também possui cotas. Ora, pensem comigo (é de graça):

  • Se o pagamento por um determinado serviço é compulsório, não há absolutamente nada de errado em um cidadão que paga por este serviço utilizá-lo. E aí entram SUS, defensorias públicas, atendimento policial, estradas, e por aí vai. 
  • Não há nada que impeça uma pessoa de defender pacificamente que o Estado pare de bancar educação pública, saúde pública, previdência pública. 

Ora, que contradição há em pagar por algum serviço, e de fato utilizar aquele serviço ou benesse? Dadas as práticas comuns à companheirada brasileira, daqui a pouco vão fazer um dossiê com todas as vezes em que a menina foi atendida em um hospital do SUS.

Fascistas! Quem?
Vejam a figura abaixo, direto da página do movimento contra a ARENA:

Tortura? Só contra a língua portuguesa.

Uma das taras esquerdistas mais frequentes quando querem ofender alguém é rotulá-los de fascistas ou nazistas. Ora, qualquer um com meio cérebro e algum conhecimento de política e história sabe que os nazistas e fascistas eram de... esquerda! 
Isso é somente mais uma instância da aplicação da máxima de Lênin: "Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é!" Se alguém no espectro político possui afinidades com o fascismo, seria a esquerda. 

Liderando pelo exemplo
O pessoal desse movimento fala que não é contra o partido em si, mas contra o uso do nome "ARENA". Contudo, na página do ato do movimento, adivinhem:

Só eu li "Ato contra a refundação do partido Arena"?
Como eles são muito democráticos e tolerantes, não se furtam a mostrar isso ao mundo:

Ele realmente acha que a direita é fascista.
"Contra meus desafetos, o pau de arara." Uma prática bem democrática. 

Acuse-os do que você faz
Esse povo do movimento quer impedir a criação de um partido cuja ideologia eles não concordam. Contudo, impedir a criação de um partido contrário a seus ideais é uma prática típica de... ditaduras!
Fundar um partido com o nome de ARENA pode até ser um nome de mau gosto. Não é o primeiro. O Partido Progressista não tem nada de progressista nele, exceto a progressão logarítmica do saldo das contas do Maluf. Eu acho de muito mau gosto, por exemplo, que a última vez que o presidente de honra do Partido dos Trabalhadores trabalhou de verdade foi na época da ditadura. Alguns apontam que nem naquela época ele trabalhava muito.
Na página do movimento contra a ARENA, é repetida várias vezes a frase "Pense, ainda não é ilegal". Isso vem do mesmo pessoal que acha que o fascismo foi de direita, que o pau de arara é ícone da livre-expressão democrática e que querem impedir a criação de um partido que, apesar das controvérsias, não cometeu nenhuma ilegalidade desde sua (re)fundação. Acho que a frase está incompleta. Considerando que  um dos administradores da página do "Movimento Arena Não" escreveu na página "eu, um dos administradores, não acho o socialismo a solução (embora considere uma etapa de transição para um sociedade utópica e perfeita)", imagino que a frase completa seria "Pense, ainda não é ilegal. Mas espere até criarmos nossa sociedade utópica e perfeita".
Quem lê isso pode inicialmente pensar "prefiro mil ARENAs à utopia socialista". Entre uma ditadura de esquerda e uma de direita, eu prefiro uma democracia, onde a ARENA tem o direito de existir, e mesmo os idiotas que defendem essa utopia socialista tenham o pleno direito de ser idiotas.


ATUALIZAÇÃO EM 07/12/2012 - 02:19hs
Não deixem de ler o texto que escrevi logo depois desse, com as provas das tendências totalitárias desse povinho do Movimento Arena Não.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Agradeça a esquerda

Fala-se muito mal dos parlamentares no Brasil. Com razão. Segundo reportagem do portal R7, o Congresso Nacional custou 6 bilhões de reais em 2011. Isso significa R$ 684.931,51 por hora. E isso contando as 8.760 horas do ano, não aquelas 150 horas em que os parlamentares trabalham (estou sendo bonzinho).
Essa semana descobri que há uma página no site da Câmara em que há enquetes para que os visitantes dêem sua opinião sobre a pauta da Câmara. Apesar das perguntas ali expostas se referirem a uma reduzidíssima parcela do putilhão de projetos de lei que tramitam na casa, imagino que se tratem daquelas em que teoricamente a população teria mais interesse. O site, para quem quiser visitá-lo, está nesse link.

É só porcaria
Vejamos abaixo alguns dos projetos de lei que a agência de notícias da Câmara achou que seriam de maior interesse do público (os projetos vão em vermelho, meus comentários em preto): 
  • Incentivo ao uso de bicicletas (PL 6474/09): cria o Programa Bicicleta Brasil, exigindo que todas as cidades com mais de 20 mil habitantes tenham ciclovias e bicicletários.
É ridículo ter que falar isso, mas cada cidade que resolva seus problemas da forma que achar melhor. O deputado Jaime Martins (PR-MG), proponente dessa bobagem, acha que como toda cidade de mais de 20mil pessoas é igual, todas tem os mesmos problemas, para os quais, obviamente, ele tem a solução: criar ciclovias e bicicletários. Esse mané deve ter viajado para a Europa (provavelmente com o nosso dinheiro), visto umas ciclovias e bicicletários e pensado: "pô, que legal, vou obrigar todo mundo lá na Banânia a fazer o mesmo". Já de onde saiu o número mágico de 20 mil pessoas não sei. Mas pelo que vi nos dados do último Censo, isso significa que "somente" 1.651 municípios brasileiros terão que se adequar. Com o nosso dinheiro. 
  • Proteção de participantes de reality shows (PL 2812/11): proíbe as emissoras de rádio e televisão, inclusive as TVs por assinatura, de exibir situações humilhantes e degradantes em reality shows?
O deputado Edson Pimenta (PSD-BA), que provavelmente nas próximas eleições concorrerá "em defesa das periguetes, sub-celebridades, e aspirantes a sub-celebridades" quer proteger aquela parcela da população que se submete a sua própria ridicularização em rede nacional. Ora, se for para impedir que pessoas ignorantes, iletradas e sem nada na cabeça sejam humilhadas em cadeia nacional de rádio e televisão, as primeiras coisas a proibir seriam a TV Câmara e a TV Senado. 
O maior reality show da TV brasileira são a TV Câmara e a TV Senado. E convenhamos, nela também há um monte de imbecis que se humilham e degradam em cadeia nacional. Mas não é tão divertido quanto os outros reality shows, pois nesse somos lembrados que todos nós pagamos diretamente por uma programação de terceira categoria.  
  • Criminalizar flanelinhas (PL 2701/11): criminaliza a ação de flanelinhas e guardadores de carro?
Eu também detesto flanelinhas. Porém, se as polícias não conseguem prevenir furtos de veículos nem capturar os criminosos, como o deputado Fabio Trad ( PMDB-MS) sugere que elas prendam todos os flanelinhas? Coisa típica de quem ouviu o motorista (que nós pagamos, claro) reclamar dos flanelinhas e pensou "farei algo a respeito". 
Ora, se um flanelinha toma alguma ação ilegal, como ameaçar ou agredir o condutor, ou mesmo danificar o veículo, qual dessas ações não está prevista no Código Penal? Acho que o deputado não lê as bobagens que o estagiário do gabinete escreve, daí acaba apresentando uma coisa dessas.
  • Direito de greve para os servidores públicos (PL 4497/2001)?
É uma opinião controversa, mas eu defendo o direito de quem não está satisfeito procurar outro emprego. Já expus essas opiniões em outro texto. Regulamentar a greve de servidores públicos é legitimar e piorar a bandalheira já existente. Repito: não está satisfeito com seu emprego? Arrume outro. Ou então admita que você é incompetente demais para disputar uma vaga na iniciativa privada e se conforme em ser um barnabé privilegiado com estabilidade pelo resto da vida (que problema, né?).
Servidor público em greve? Greve, por exemplo, dos servidores do Ministério do Trabalho em busca de melhores condições? Isso é tão ridículo que nem vou me estender sobre o assunto.
  • Sacolas plásticas (PL 612/07): obriga supermercados a substituir sacolas plásticas convencionais por sacolas biodegradáveis?
Ai que preguiça. Já falei tanto disso (aqui e aqui) que estou meio saturado do assunto. Fui ler as justificativas para o projeto do deputado Flávio Bezerra (PMDB-CE), que tem como objetivo, segundo texto por ele apresentado: "substituir as sacolas de plástico convencional por sacolas de plástico oxi-biodegradáveis, uma vez que as sacolas convencionais não são recicláveis, e, portanto são considerados os maiores poluidores de nosso meio ambiente." Aprendi que as sacolas plásticas convencionais são "os maiores poluidores do nosso meio ambiente" (o erro de concordância é do original). Fico feliz em saber disso.
Então se acabarmos com as sacolas "convencionais", o deputado promete que tanto ele quanto seus colegas parlamentares, ongueiros, ecochatos (múltipla escolha) param de encher nosso saco com desmatamento, agrotóxicos, transgênicos, Belo Monte, e essa palhaçada toda? Se ele prometer isso, eu paro de usar sacolas plásticas "convencionais". 
  • Lei do Salto Alto (PL 1885/11): proíbe a venda de sapatos femininos com salto alto para crianças?
Dizem que o Brasil é o país da piada pronta, e esse é um caso claro. Eu juro que não inventei isso só pra adicionar comicidade ao texto. Vejam na página da Câmara. 
O deputado Décio Lima (PT-SC), muito preocupado em "zelar pela proteção à saúde e à segurança de nossas meninas", propõe (é sério, juro, o texto está nesse link) proibir a venda de sapatos com salto alto para infantes.
O que o deputado esquece é que essas crianças, que suponho não sejam crias do meretrício  (a exemplo de muitos dos pares do deputado), possuem pais. Então, deputado, confie nos pais e deixe que eles decidam o que é melhor para suas crianças. Nem todos são tão irresponsáveis quanto seu eleitorado.


O que vemos nos projetos de lei acima é só porcaria. Os porcos nos dão lombinho, costelinhas e bacon. Também nos presenteiam com bastante matéria fecal. Já os deputados dessas propostas ficam só na matéria fecal.

Falta senso de ridículo
Qual o ponto comum entre todas as propostas acima? O fato que todas as propostas possuem um viés esquerdista. Todas querem que o Estado faça "mais", quando ele sequer faz o mínimo. Que por sinal, era só o que deveria fazer.
Pelo que vai nas propostas acima, parece que os parlamentares, quanto mais fazem, mais pioram as coisas. Enquanto os parlamentares discutem o salto alto para crianças e a instalação de ciclovias, não se fala em reforma tributária. Reforma política então, nem de longe. Afinal, pra que mudar um sistema que permite que os parlamentares gastem nosso dinheiro com propostas idiotas como as acima e saiam ilesos?
Minha sugestão era que cada cidadão deveria ter como hobby ridicularizar um parlamentar por mês. Já seria suficiente para eles pararem com essas porcarias.

Falta direita no país
Como já está claro em um dos textos mais lidos do blog:
A esquerda prega o "bem comum" através da centralização do poder nas mãos de um Estado gigantesco, onipresente e controlador, a direita acredita no poder de realização e liberdade individuais, que cada pessoa tenha liberdade para seguir seus próprios interesses.

A esquerda prega o controle ferrenho do mercado em nome do "bem comum", a direita acredita que cada um sabe o que é melhor para si e é capaz de gerir seus recursos em prol de si próprio e sua família.

A esquerda prega que "intelectuais" esclarecidos, benevolentes e bem intencionados sabem o que é melhor para a sociedade inteira, a direita acredita que cada indivíduo é capaz de cuidar de sua própria vida.

A esquerda prega que a moralidade do Estado deve substituir e sobrepor-se a quaisquer valores da sociedade, a direita acredita que os valores judeo-cristãos serviram à sociedade ocidental muito bem até agora.
No Brasil esquerdista, sem qualquer oposição ideológica significativa, o que vemos é isso aí. Propostas inúteis, absurdas, que não somente diminuem a estatura moral do Congresso, mas diminuem a moral e o bem estar de qualquer um que esteja consciente que paga caro por isso. E sem dúvida, cada uma dessas propostas irá precisar de mais dinheiro para o Estado. Dinheiro seu, que concordando ou não com esse texto ou com as propostas acima, vai pagar por essa coisa toda.
As pessoas podem não saber em quem votar -- a julgar pelo fato que os nem-tão-ilustres acima foram eleitos -- mas sabem de uma coisa: elas querem seu dinheiro, o fruto de seu trabalho, em seus bolsos -- não na conta do governo. Afinal, ninguém sabe melhor do que eu preciso que eu mesmo. E ninguém sabe melhor do que você precisa que você mesmo. Infelizmente, até onde sei não temos um parlamentar sequer que defenda reduzir o Estado e dar mais liberdade de decisão para o indivíduo. Liberdade para colher os frutos do seu sucesso, e ter de arcar com as consequências de seu fracasso, se for o caso. Países sérios são assim. Já nas repúblicas bananeiras, como o Brasil, trata-se o cidadão como um incapaz, que precisa viver sob a tutela do Estado. 
Nesse conto de fadas às avessas que é o Brasil, sustentamos o lobo mau, entregamos o fruto de nosso trabalho a ele, e somos gratos quando ficamos com as migalhas. Agradeça a esquerda. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O porquinho atrapalhado do Greenpeace


Eu não gosto do Greenpeace. Entre suas práticas estão cooptar crianças, plantar notícias falsas na imprensa, criar umas campanhas ridículas, falar de falecidos como se fossem filiados, incitar baderna e espalhar inverdades aos quatro ventos. Como gostar de uma entidade que tem essas práticas quase como se fossem um norte moral? Eu sei exatamente porque não gosto deles. E quem gosta e apóia o Greenpeace, sabe porque o faz?
Li uns dias atrás um texto no site dos ecotalibãs (link aqui) que me espantou. E não pelo fato que eles falaram alguns absurdos (isso eles sempre fazem), mas porque concordei com alguns pontos. Abaixo, o texto comentado, com o texto deles em vermelho-melancia:

Direto da pocilga
Onde abundam alternativas, vigora desperdício

Foi realizado nesta terça-feira (6), na Câmara dos Deputados, o VI Simpósio Amazônia: Desenvolvimento Regional Sustentável. Sérgio Leitão, diretor de Políticas Públicas do Greenpeace, alertou os presentes para o desperdício de potencial energético no Brasil, um país que abunda em recursos alternativos.
Achei o máximo! Minha dissertação de mestrado também fala de potencial de energia desperdiçado. No meu caso, o desperdício de energia que poderia ser gerada com mais Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), uma fonte de energia alternativa. 
“A Amazônia possui um potencial de bioeletricidade que é completamente desperdiçado. Vira fumaça nas madeireiras o que poderia virar energia.
Leitão não se contenta em falar em termos generalistas: quer ser específico. E defende a geração de energia elétrica por termoelétricas a biomassa. Ótimo. Acho a biomassa uma das fontes de energia elétrica mais viáveis técnica e economicamente, além de ser uma ótima alternativa para a geração descentralizada, sobretudo na Amazônia. Nem parece que Leitão é do Greenpeace.
Além disso, o Brasil é o país do sol e do vento, principalmente na região nordeste.
Isso aí é só o mantra ambientalista. Essas fontes não se sustentam sozinhas. Estou pra ver alguém montar uma eólica ou solar sem subsídios. 
Outro exemplo são os lixões a céu aberto. Temos mais de 20 milhões de habitantes na Amazônia que poderiam ser beneficiados com o aproveitamento dos lixões para produção de energia, também com geração de crédito de carbono. Mas o governo não conseguiu ainda transformar isso em política pública”, afirmou.
Incineração de lixo para gerar energia elétrica? Notem que ele (diretor de Políticas Públicas do Greenpeace) inclusive lamenta que isso não seja uma política pública. Não poderia concordar mais.
Segundo estudo da Agência Internacional de Energia, citado no Seminário, o Brasil possui o segundo pior desempenho em termos de economia de energia dos países do G-20, ficando à frente apenas da Arábia Saudita. O país conquistou tal colocação, pois reduziu apenas 22,7% a sua intensidade energética. Em comparação, a China, primeira colocada no ranking, teve uma redução de 66%.
Comparar o Brasil com a China é uma comparação intelectualmente desonesta, algo típico dos ambientalistas. Ora, a China reduz a intensidade energética porque lá, se não tem energia, você vai reclamar com quem? O mesmo governo que manda na bagaça toda? Se os membros da nomenklatura chinesa quiserem, eles reduzem o consumo em até mais que 66%. É só deixar a população sem energia. Como se eles se importassem.
“As prioridades do Plano Energético vão para onde se investe o dinheiro. E o dinheiro vai para o petróleo. Mas que política é essa que o governo não consegue dizer se é viável, se vai dar retorno? Vamos gastar 749 bilhões no pré-sal. Estamos destinando todo o recurso do país para investir num combustível do passado, enquanto o país tem alternativas possíveis. Mas novos paradigmas não são considerados. Vamos discutir se ferrovia é uma alternativa viável? Não, isso não interessa”, contestou Sérgio Leitão.
Eu não sei se alguém transcreveu errado, mas vindo dos ecochatos, acho que não. Então, se entendi bem (o texto está em algo parecido com português), nada de investir em petróleo. Afinal, temos alternativas possíveis, como o... a... Mas deve ser pessimismo meu, pois podemos abandonar o petróleo, a exemplo de... de quem mesmo? Ah é, nenhum país do mundo abandonou o petróleo. 
Outro ponto criticado foi a flexibilização, por parte do governo federal, das normas de licenciamento para liberação de empreendimentos de infraestrutura. De acordo com o diretor do Greenpeace, o Plano Decenal de Energia do Ministério das Minas e Energia para o período de 2011 a 2021 prevê que uma área de 6.456km2 será inundada para viabilizar o fornecimento de energia para as 34 novas usinas hidrelétricas no país. Segundo ele, isso equivale ao somatório dos territórios de dez capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Recife e Maceió.

“Grandes reservatórios inundam as terras onde vivem milhares de pessoas, destruindo suas vidas, seus projetos de futuro. O Brasil vive um paradoxo. É na democracia que se destrói a lei, porque não se tem a capacidade para fazê-la ser cumprida. Assim foi com o Código Florestal, e assim será com o licenciamento de grandes empreendimentos”, completou Sérgio Leitão.
Babe deve ter notado que falou algumas coisas sérias que contrariam a ideologia ambientalista e ficou com medo de perder o emprego. Daí desandou a falar bobagens. E como agradar o patrão? Dá porrada nas hidrelétricas. Afinal, essa é a ideologia que eles defendem aqui. 
O que eles não gostam é de fazer cálculos. E não gostam que vocês façam também, por isso usam essas comparações do tipo "aqui cabem 5 cidades", como se eles fossem apoiar a construção de uma cidade. Mas comparar a área de hidrelétricas com as capitais, tem mais efeito que afirmar: a área atingida pelas hidrelétricas equivale à área onde vivem 497 putilhões de mosquitos ou 3 montilhões de ratos. Afinal, quem apóia o Greenpeace normalmente mora nas cidades, e nunca conheci alguém que gostasse de mosquitos ou ratos (aposto que nem o pessoal do MAB gosta deles, e eles odeiam hidrelétricas).
Utilizando a área apresentada no texto a ser inundada (6.456 km²) e dividindo pelo total da área brasileira segundo o IBGE, de 8.515.767,049 km², isso quer dizer que em 10 anos serão utilizados absurdos 0,076% da área do país para atender 100% da população e das atividades econômicas que precisam de energia. A mim não parece muito. Eu empenharia 0,076% do meu apartamento para garantir energia elétrica por 10 anos. Trocaria sem dúvida o vaso de plantas na sacada (que só dá trabalho) por 10 anos do ar condicionado, que me ajuda a trabalhar, dormir e manter os mosquitos longe. 
Mas o discurso não parou por aí. Como já estava todo atrapalhado, Leitão resolveu chafurdar na pocilga do "pensamento" ambientalista e soltou a pérola "É na democracia que se destrói a lei, porque não se tem a capacidade para fazê-la ser cumprida. Assim foi com o Código Florestal, e assim será com o licenciamento de grandes empreendimentos”. Ou eu e todos os autores que li estamos enganados, ou na democracia as leis são alteradas de acordo com os anseios da sociedade, por meio das instituições. Falar que o Código Florestal foi destruído é de uma infelicidade incrível, assim como supor que o licenciamento de grandes empreendimentos é fácil ou flexível. A fala do Babe do Greenpeace demonstra toda a inexperiência que ele tem com licenciamento ambiental. 

Contradição documentada
Quem já leu qualquer outro texto meu sobre ambientalismo verá que não há novidade alguma em ambientalistas falando bobagem. Claro que aparece uma coisa ou outra de novidade, mas normalmente os mantras são os mesmos "salvem isso", "protejam aquilo", "nos deem mais dinheiro", "proíbam algo que o pessoal precisa" ou "vamos pôr um imposto em algo que as pessoas gostam". A novidade foi ver um membro do Greenpeace (um diretor) falando em derrubar árvores na Amazônia e queimar lixo para gerar energia elétrica. 
Já estava até falando com um amigo meu que trabalha com termoelétricas a biomassa, sugerindo que ele anexasse a fala de Leitão nos estudos ambientais de seus empreendimentos (Greenpeace apoiando biomassa, essa é nova); quando me deparei com outro texto no site do Greenpeace sobre incineração, no qual lê-se:

DEMANDAS DO GREENPEACE 
Os seguintes pontos devem estar presentes nas estratégias para estímulo à prevenção, reutilização e reciclagem, e, portanto, para a diminuição dos impactos adversos na saúde humana causados pelo manejo de resíduos: 
•  Plano de eliminação de toda e qualquer forma de incineração industrial até 2020, incluindo a incineração de resíduos sólidos urbanos.  Essa meta está de acordo com as exigências da Convenção de OSPAR de eliminação das emissões e descargas de quaisquer substâncias perigosas até 2020. [grifo meu]

Acho feio quando alguém se contradiz de uma forma tão clara e documentada. Como no caso do Greenpeace acho a contradição divertida, aqui vai outro link onde se lê os pais de Babe em campanha contra a incineração. Nesse, o título já entrega: "Lixo: Incineração não é a solução". 
Suspeito que Babe vai para a fila do seguro-desemprego, e não pelas bobagens que falou sobre democracia ou por não apresentar nenhuma idéia para substituir o petróleo, e sim pelos mesmos motivos com os quais concordei em alguns pontos com ele: ele quer beneficiar a população. Se o pior acontecer, eu me prontifico a indicar um amigo meu que trabalha com biomassa. Se precisar, Babe, deixa um comentário aqui no blog.

O que quer o Greenpeace?
Lamento informá-los que não tenho uma resposta com certeza para a pergunta acima. Porém eu tenho uma  hipótese razoável. Os ambientalistas em geral gostam de dizer que ninguém atua para proteger o ambiente. Eles criticam os órgãos ambientais, os empreendedores, os técnicos, o governo, a população e até mesmo outras ONGs (brigam até entre eles). E o fazem com um propósito específico: se apresentar para a sociedade como se fossem os únicos preocupados com o ambiente. Assim, inviabilizam o debate, apresentando somente suas idéias como se fossem a verdade absoluta. O Greenpeace é especialista nisso. Arrisco dizer que eles tem mais gente trabalhando em divulgação e propaganda que realizando estudos técnicos sérios. 

Na contramão da sociedade
O Greenpeace bola tantas campanhas para aproveitar a comoção da vez que nunca se aprofunda em nenhum assunto, ou consegue qualquer benefício palpável para a sociedade ou mesmo para o ambiente que eles pregam defender. Mas a organização só cresce, movida a ideologia barata, mistificação e campanhas mentirosas. O objetivo deles está sendo alcançado. Já os da população são secundários. Na visão deles, a população não sabe o que quer. Quem sabe são os iluminados das ONGs, que querem mandar na sua vida.
Aposto que os amazônidas preferem energia elétrica confiável e barata, resolvendo os problemas dos lixões e criando empregos na geração de biomassa que o proselitismo das campanhas que hoje são a principal atividade das ONGs. Infelizmente, isso não acontecerá enquanto as ONGs em geral e o Greenpeace em particular não trocarem a ideologia pela ciência, a mistificação por dados e as campanhas por estudos. Por enquanto, eles preferem tratar a nós como animais irracionais, e nossos ouvidos como esterqueiras.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A falácia do "genocídio indígena", ou: O racismo em pele de ovelha

Criou-se uma comoção nas redes sociais e até em alguns noticiários ditos sérios por conta de uma carta dos índios Guarani-Kaiowá, seguida de uma campanha pedindo assinaturas para algumas daquelas coisas que o  povo que vive pedindo assinatura inventa. 
O próprio texto pedindo as assinaturas já é um atestado daqueles casos em que as boas intenções não são acompanhadas de uma checagem dos dados disponíveis. Veja abaixo:
Leia, abaixo, carta de socorro da comunidade Guarani-Kaiowá. Os índios da etnia Guarani-Kaiowá estão correndo sério risco de GENOCÍDIO, com total omissão da mídia local e nacional e permissão do governo. Se você tem consciência de que este sangue não pode ser derramado, assine esta petição. Exija conosco cobertura da mídia sobre o caso e ação urgente do governo DILMA e do governador ANDRÉ PUCCINELLI, para que impeçam tais matanças e junto com elas a extinção desse povo.
Após esse texto introdutório, vem a carta dos índios Guarani-Kaiowá, que pode ser lida no mesmo link. 

O "genocídio indígena"
Bom, como fiquei interessado nessa questão do "genocídio indígena", fui atrás dos dados no IBGE. Lá no SIDRA achei a seguinte tabela (link):

Brasil - População residente, por cor ou raça
Cor ou raça
População residente (Pessoas)
População residente (Percentual)
1991
2000
2010
1991
2000
2010
Total
146815815
169872856
190755799
100,00
100,00
100,00
Branca
75704922
91298042
90621281
51,56
53,74
47,51
Preta
7335130
10554336
14351162
5,00
6,21
7,52
Amarela
630658
761583
2105353
0,43
0,45
1,10
Parda
62316085
65318092
82820452
42,45
38,45
43,42
Indígena
294148
734127
821501
0,20
0,43
0,43
Sem declaração
534872
1206675
36051
0,36
0,71
0,02
Fonte: IBGE - Censo Demográfico


Notem pelo dado do IBGE que a população indígena vem crescendo nos últimos três censos demográficos. Em 1991 eram 294 mil, em 2000 os indígenas eram 734 mil, e em 2010, 821 mil. Só para contextualizar, o genocídio mais famoso da história, o dos judeus durante a segunda guerra, matou 6 milhões em menos de uma década. 
Vendo os dados, me parece que os indígenas estão sendo "assassinados" como coelhos. 

Os maiores inimigos dos índios no Brasil

Obviamente as pessoas que considero os maiores inimigos dos indígenas no Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), já entrou na onda, e divulgou no twitter um de seus relatórios (aqui), onde eles apresentam os números de assassinatos de indígenas no Brasil:


O relatório não para por aí, e mostra o número de suicídios, que está reproduzido abaixo:

Notem que eles mostram números absolutos, e que a fonte de dados que o relatório do CIMI utiliza é... outro relatório do CIMI! Como eu não confio no CIMI, e sou um pouquinho mais rigoroso nas minhas pesquisas, fui atrás de dados de fontes um pouco mais, digamos, fidedignas. Então entrei no DATASUS e fui pesquisar os dados de mortalidade do Brasil. 

Assassinatos no Brasil
Abaixo seguem os dados de assassinatos no Brasil por cor e raça, tal como disponíveis no DATASUS (link aqui):

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X85-Y09 Agressões
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
17834
3845
259
19673
102
3647
45360
2001
18689
4057
111
21347
69
3670
47943
2002
18867
4099
103
22853
75
3698
49695
2003
18846
4657
178
23674
78
3610
51043
2004
17142
4153
139
23549
71
3320
48374
2005
15710
3806
81
24648
93
3240
47578
2006
15753
3949
91
25976
125
3251
49145
2007
14308
3921
45
26272
144
3017
47707
2008
14650
3881
74
28468
153
2887
50113
2009
14851
3875
60
29658
135
2855
51434
2010
14047
4071
62
30912
111
3057
52260
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Notem que os dados oficiais, disponíveis no DATASUS, mostram que o número de óbitos de indígenas por assassinato é maior que aqueles reportados pelo CIMI. E descobri isso sem sair de casa, somente com minha conexão de banda larga. E ainda fiz uma tabela maior, de 2000 a 2010. Como os dados absolutos significam pouco por si sós, fiz uma outra tabela com o percentual dos óbitos por cor ou raça, que segue abaixo:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Percentual de Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X85-Y09 Agressões
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
39.32%
8.48%
0.57%
43.37%
0.22%
8.04%
100.00%
2001
38.98%
8.46%
0.23%
44.53%
0.14%
7.65%
100.00%
2002
37.97%
8.25%
0.21%
45.99%
0.15%
7.44%
100.00%
2003
36.92%
9.12%
0.35%
46.38%
0.15%
7.07%
100.00%
2004
35.44%
8.59%
0.29%
48.68%
0.15%
6.86%
100.00%
2005
33.02%
8.00%
0.17%
51.81%
0.20%
6.81%
100.00%
2006
32.05%
8.04%
0.19%
52.86%
0.25%
6.62%
100.00%
2007
29.99%
8.22%
0.09%
55.07%
0.30%
6.32%
100.00%
2008
29.23%
7.74%
0.15%
56.81%
0.31%
5.76%
100.00%
2009
28.87%
7.53%
0.12%
57.66%
0.26%
5.55%
100.00%
2010
26.88%
7.79%
0.12%
59.15%
0.21%
5.85%
100.00%
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Notem que não há grande oscilação dos números no que se refere ao "genocídio indígena". Ora, não há, em 10 anos, nenhum tendência clara de crescimento de homicídios cometidos contra indígenas. Diga-se de passagem, o único grupo de cor/raça que apresenta uma tendência clara de crescimento de homicídios é o dos pardos. Até onde vi, não há nenhum abaixo assinado contra o "genocídio dos pardos". 

Os suicídios
Por sorte, ou só por saber onde pesquisar (aprendam jornalistas),  encontrei também os dados de suicídios no Brasil, por cor/raça. A tabela com os dados absolutos segue abaixo:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
4034
361
43
1726
50
566
6780
2001
4562
404
43
2136
46
547
7738
2002
4475
393
36
2192
64
566
7726
2003
4447
439
41
2359
66
509
7861
2004
4524
407
35
2457
68
526
8017
2005
4661
456
39
2785
80
529
8550
2006
4695
488
35
2872
82
467
8639
2007
4614
438
46
3304
75
391
8868
2008
4848
495
39
3416
100
430
9328
2009
4935
502
34
3417
95
391
9374
2010
4843
514
37
3528
93
433
9448
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
Em comparação com os dados do DATASUS, nota-se que o CIMI novamente subestimou os dados de suicídios. Comparando os suicídios dos indígenas com os de outros grupos, temos a seguinte tabela:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
59.50%
5.32%
0.63%
25.46%
0.74%
8.35%
100.00%
2001
58.96%
5.22%
0.56%
27.60%
0.59%
7.07%
100.00%
2002
57.92%
5.09%
0.47%
28.37%
0.83%
7.33%
100.00%
2003
56.57%
5.58%
0.52%
30.01%
0.84%
6.48%
100.00%
2004
56.43%
5.08%
0.44%
30.65%
0.85%
6.56%
100.00%
2005
54.51%
5.33%
0.46%
32.57%
0.94%
6.19%
100.00%
2006
54.35%
5.65%
0.41%
33.24%
0.95%
5.41%
100.00%
2007
52.03%
4.94%
0.52%
37.26%
0.85%
4.41%
100.00%
2008
51.97%
5.31%
0.42%
36.62%
1.07%
4.61%
100.00%
2009
52.65%
5.36%
0.36%
36.45%
1.01%
4.17%
100.00%
2010
51.26%
5.44%
0.39%
37.34%
0.98%
4.58%
100.00%
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
Novamente, nenhuma tendência clara de aumento entre os indígenas. Já os pardos, coitadinhos...

E isso é muito ou pouco?
Notem que, a exemplo do CIMI, eu só apresentei os dados, sem contextualizá-los. Como quero continuar a ter o privilégio de falar mal deles, vou explicar direitinho como se analisa se os homicídios e suicídios dos indígenas são muitos ou poucos. Compará-los entre si mostra, como nas tabelas acima, o percentual das vítimas de homicídio e de suicídio por grupo, o que é interessante, para, por exemplo mostrar que a proporção de vítimas de homicídio pardas está crescendo, como fiz acima.
Para verificar se um determinado grupo ou etnia está sendo mais ou menos atingido, como grupo, por determinada ação (assassinatos e suicídios, no nosso caso) é necessário ver se os membros desse grupo possuem uma participação total na sociedade maior ou menor que sua participação no rol de vítimas dessas ações. É mais simples que parece. Darei um exemplo que até o pessoal do CIMI conseguirá entender: se uma cidade é composta por 70% mulheres e 30% de homens, é de se esperar que a distribuição dos mortos em um determinado período (sem guerras e outros fatores do tipo) seja de 70% mulheres e 30% de homens. Ou seja, as pessoas morrem na mesma distribuição em que elas se encontram na amostra. Isso é uma distribuição ideal. Porém, se com a mesma população, de 70% de mulheres e 30% de homens, os mortos se distribuírem em 85% mulheres e 15% homens, há aí um indicador que mais mulheres estão morrendo, e daí se investigam as causas. Não é tão complicado. Até antropólogos entendem.
Portanto, para sabermos se os índios são mortos ou se matam mais que outros grupos de cor/raça, precisamos saber como é a distribuição de cor/raça entre a totalidade da população. Por isso coloquei aquela tabela lá em cima, onde estão apresentados a população em indivíduos e em percentual. Compondo essa tabela com os dados do DATASUS, cheguei ao seguinte resultado:

Brasil - Distribuição da população, suicídios e assassinatos por cor/raça - 2000 e 2010
Cor/Raça
2000
2010
População
Suicídios
Assassinatos
População
Suicídios
Assassinatos
Branca
53.74%
59.50%
39.32%
47.51%
51.26%
26.88%
Preta
6.21%
5.32%
8.48%
7.52%
5.44%
7.79%
Amarela
0.45%
0.63%
0.57%
1.10%
0.39%
0.12%
Parda
38.45%
25.46%
43.37%
43.42%
37.34%
59.15%
Indígena
0.43%
0.74%
0.22%
0.43%
0.98%
0.21%
Sem declaração
0.71%
8.35%
8.04%
0.02%
4.58%
5.85%
Total
100.00%
100.00%
100.00%
100.00%
100.00%
100.00%

Pela análise dos dados, nota-se que os brancos, historicamente, tem uma participação maior no total de suicídios que seu percentual na população. O mesmo acontece com os índios. De fato, o percentual de suicidas indígenas é, em 2000, quase o dobro do percentual de indígenas no país, enquanto em 2010, o percentual de indígenas na população permaneceu inalterado, porém o percentual de suicidas indígenas é mais que o dobro do percentual de cidadãos que se declaram índios. Nisso, as alegações estão certas, os indígenas de fato tomam mais suas próprias vidas que outros grupos de cor/raça.
Já nos assassinatos, o que ocorre é justamente o contrário. Enquanto os pardos (sempre eles, coitados) possuem uma participação maior entre as vítimas de assassinato que sua participação na sociedade, o percentual de vítimas indígenas de assassinato  é menos da metade de sua população. Mais seguro que isso, só se você for oriental. 

Há motivo para alarde?
Eu apenas arranhei aqui a superfície do problema. O que fiz foi só brincar com estatística descritiva e mostrar que não é tão difícil. A dificuldade está em determinar qual a causa que leva os indígenas a apesentar uma maior incidência de suicídio e uma menor incidência de homicídio, em relação a sua distribuição na sociedade. Os grupos que defendem o índio tutelado, dependente, dizem que é porque eles estão sendo expulsos de suas terras, apesar dessa população de menos de 0,5% do país usufruir de mais de 13% da área. Contudo, essa é uma hipótese que não pode ser ignorada. Eu tenho outras, igualmente válidas sem um estudo mais aprofundado, que nem eu nem os manés que assinam essas porcarias que aparecem na net fizeram.

Minhas hipóteses:
  1. Insatisfação com o governo Lula;
  2. Aumento do preço da cachaça;
  3. "Banda larga" 3G que não funciona;
  4. Desilusão amorosa;
  5. Morte da cabrita; e minha preferida:
  6. Aquecimento global.
Repito, enquanto não forem feitos estudos mais aprofundados que identifiquem de fato as causas, é puro proselitismo afirmar que uma etnia de menos de 0,5% da população se suicida porque não está contente com os 13% do território que lhes foram outorgados pelo Estado.
O que dá pra afirmar é que não há evidências de um genocídio. Ou será o primeiro genocídio auto infligido da história. 


Então, porque toda essa falação? 
Os índios Guarani-Kaiowá publicaram uma carta na qual contestam uma decisão da Justiça Federal do MS. Nela, em algo parecido com o português (viu como o CIMI não serve pra nada? Nem ensinaram português para eles) falam em morte coletiva. Isso pode dizer que estão dispostos a morrer juntos, lutando, ou como os alarmistas querem que você acredite, que estão dispostos a cometer suicídio coletivo. Foi o que bastou para todos os grupos de desocupados do Oiapoque até o outro lado do arco-íris se apropriasse da causa dos coitadinhos dos Guarani-Kaiowá. Alguns malucos até afirmaram que "Se você come carne, está patrocinando isso" (é verdade! vejam nesse link). Não sei se é falta de proteína animal ou se eles andam fazendo mais coisas com seu verde além de comer. O único pingo de sensatez que vi até agora veio da BBC Brasil, que publicou uma reportagem (aqui) com o título: "Carta sobre 'morte coletiva' de índios gera comoção e incerteza", na qual lê-se:
A carta dos indígenas Guarani-Kaiowá, anunciando o que foi interpretado por muitos como uma ameaça de suicídio em massa, vem gerando comoção, mas também incerteza sobre o real significado do documento assinado por líderes da tribo. 
A carta, que teve ampla repercussão nas redes sociais e em portais de notícia do Brasil e do exterior, foi interpretada como um anúncio de suicídio coletivo por parte dos Pyelito Kue, comunidade de 170 indígenas que expôs seu desespero após receber uma ordem de despejo da terra onde vive acampada. Na carta, os indígenas afirmavam que dali não sairiam vivos. 
O documento fala em "morte coletiva" e afirma que, se insistir no despejo, o Estado estará decretando a morte dos indígenas, exprimindo profunda desesperança no governo e na Justiça Federal.
Parabéns para a repórter Júlia Dias Carneiro, que, apesar de só utilizar os dados do CIMI, ao menos teve a coerência de admitir que não há certeza sobre a ameaça de suicídio coletivo que tanto se falou nos últimos dias em todo canto da internet e nos periódicos menos sérios. Afinal, basta ver os dois primeiros parágrafos da carta:
Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.
Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Gente, entendam o seguinte: os índios estão contestando uma decisão da justiça. Eles podem fazê-lo, desde que haja uma instância superior ao qual eles possam recorrer. Nesse caso, ainda há instâncias superiores. Ou seja, se eles querem contestar essa decisão -- e tem tanto direito quanto qualquer um de fazê-lo -- podem fazer assim que arrumarem um advogado. Simples assim. Agora se matarem? Duvido. 

A ilusão que isso é um fato isolado
O que mais me espanta é a ingenuidade com que esse evento tem sido tratado. Da forma como essa situação é descrita nas campanhas, posts e na imprensa não-tão-séria, parece que essa lenga-lenga dos índios se matarem (quem quer se matar se mata, não fica fazendo discurso) não tem nenhuma conexão com o cenário político nacional. E tem.
Neste ano foi publicada pela Advocacia Geral da União a Portaria 303/2012 (veja mais sobre ela aqui), que, atendendo decisão do STF, determina, entre outras coisas, que Terras Indígenas não podem ser ampliadas, que os Estados devem ser consultados, que as forças armadas podem sim entrar em Terras Indígenas e por aí vai. Em suma, devolveu ao país aquele pedaço (13% é um baita pedaço) do território. Sem tirar um índio de suas casas. Outro fato importante é a tramitação da PEC 215/2000 (veja mais aqui), que determina a demarcação de Terras Indígenas é prerrogativa do Congresso, e não do Executivo. Assim, evitam-se absurdos como Raposa Serra do Sol. Obviamente isso desagradou "os ambientalistas e indigenistas de miolo-mole [que] querem poder decidir quem é desapropriado na sala do cafezinho da FUNAI", como escrevi na ocasião em que tratei do assunto. 
Depois de todas as campanhas contra a Portaria AGU 303/2012 e a PEC 215/2000 mostrarem-se infrutíferas, era necessário algo de mais impacto. Como não há nenhuma usina hidrelétrica planejada para a região (vide Belo Monte) e ninguém ateou fogo em ninguém, inventar um suicídio coletivo é, no mínimo, bem conveniente dado o contexto atual. Infelizmente nenhum veículo de comunicação lembrou de falar disso.

E se não fossem índigenas?
Para atestar a falta de validade dessa campanha, boba como tantas outras, basta notar que quando se fala de índios, parece que boa parte da população brasileira, arraigada de um sentimentalismo misturado com racismo, pensa neles como coitados, incapazes e que precisam ser protegidos. Ora, há provas e mais provas que os índios são hoje tratados pela maioria da população como sub-humanos, inimputáveis, no mesmo nível dos loucos e dos infantes: vide o caso de agressão ao funcionário da Eletrobrás ou o sequestro dos trabalhadores da Norte Energia (aqui e aqui). Isso é discriminação. 
Minha opinião nesse sentido é clara: índios são tão capazes quanto qualquer outro ser humano. Quem deseja que a população se sinta culpada por qualquer coisa que acontece com eles são exatamente aquela corja que precisa do índio incapaz e tutelado como meio de sobrevivência. O que para muitos de nós, como eu, é um dilema moral   (como melhorar a vida dessa população?) para eles é algo mais premente, do tipo: "como manter meu ganha-pão?". 
Agora pensem consigo mesmos, especialmente aqueles que se sentiram tocados pela campanha ou que andam reproduzindo essas bobagens por aí:
Se os arrozeiros de Raposa Serra do Sol (a maioria pardos, coitados) tivessem ameaçado se suicidar quando foram expulsos de suas terras para a criação de uma Terra Indígena, você se sentiria tão culpado? Teria apoiado uma campanha pedindo por ação urgente do Estado? Teria assinado por maior cobertura da mídia ao que era uma injustiça?
Se você respondeu "não", você é um racista.