quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Brasil merece

Em maio do ano passado, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, sancionou uma lei proibindo o comércio varejista de fornecer sacolas plásticas aos consumidores. Essa lei mostra, além daquele ambientalismo bocó que estamos acostumados a ver, o velho asco esquerdista ao livre mercado e à escolha individual. E sabem o pior? Quando a aplicação da lei foi derrubada em novembro de 2011, os empresários do setor foram  velozes em se comprometer a banir as sacolas. Isso me lembrou dos panacas úteis muito bem demonstrados em "A Revolta de Atlas" (Atlas Shrugged, no original).  

Seu bandido!
Além disso, essa aberração legal também determina que os estabelecimentos deverão afixar placas de 40cm x 40cm perto dos caixas com os dizeres "Poupe recursos naturais! Use sacolas reutilizáveis". Reparem nas ordens contidas na tal placa.  Você não é convidado a fazer algo ou a colaborar com o que alguns lobistas e grupos de interesse querem. Você é ordenado a aderir. Ou está contra a lei.
Uma amiga minha trabalha na Secretaria do Verde e Meio Ambiente de São Paulo. Ri mentalmente só de pensar na satisfação com os rumos da carreira dela ao ter que fiscalizar a proibição de sacolas plásticas. Ou de um fiscal inspecionando um caixa de supermercado para se assegurar que ninguém ali saia com uma sacola plástica. Não moro mais em São Paulo, mas sempre que viajar para lá, vou levar umas sacolas daqui de casa. Só pra procurar um fiscal da Secretaria do Verde no supermercado. Eu sei que é mesquinho, mas pra quem está escrevendo sobre sacolas plásticas, qualquer pequena alegria conta. Será que vão me enquadrar na Lei de Crimes Ambientais?

A vanguarda do atraso
O Brasil é a vanguarda do atraso. São Paulo, em especial, é veloz em aderir a qualquer bobagem da moda que tenha virado lei em outras metrópoles. Lei anti-fumo em New York? Lá vai alguém propor isso em SP. Bicicletas para alugar nas ruas de Paris? São Paulo não pode ficar pra trás. Espero que nenhum dos vereadores, prefeitos ou secretários de São Paulo vá a Daca (capital de Bangladesh), ou logo teremos um serviço público de riquixás na cidade. 

Isso já aconteceu antes
O que mais me incomodou nessa estória toda de placas e de quererem decidir o que é melhor para você e para o comércio foi a impressão que eu já havia visto algo muito parecido com isso. Então recordei de um artigo de Lem Rockwell onde ele lembra que: 
"eles eram fanáticos por saúde, maníacos por exercícios físicos, ecologistas radicais, entusiastas de comidas orgânicas e defensores ferrenhos dos direitos dos animais, além de nutrirem profundo menosprezo por álcool e tabaco."
Não, Mr. Rockwell não está se referindo à Serra, Kassab ou outro de nossos iluminados governantes que sempre sabem o que é melhor para nós. Rockwell se refere aos nazistas. Todos sabemos como essa história acabou. 
Não estou dizendo que nossos governantes são nazistas. Mas há coincidências: a ideologia estatizante, a paixão pela burocracia, o despropósito das ações, os meios tortos para objetivos errados... 

Cadê as prioridades?
Proíbe-se o tabaco - esses fumantes são uns delinquentes - em um país onde há mais de 50mil homicídios por ano. É obrigatório manter ao menos 20% de mata na sua propriedade privada. Em torno de 40% do seu dinheiro vai para impostos. O rombo da previdência só aumenta. O país passa por um processo de desindustrialização. Nossa inteligentsia está preocupada em proibir sacolas plásticas num país onde mais da metade da população não tem rede de esgoto.
O que virá depois? Proibição de fraldas descartáveis? Banimento de plásticos de bala? 

Nós merecemos
Cada país tem os defensores que merece. Dayan repeliu os árabes de Israel. Kassab é o Dayan do lixão. Truman fez os japoneses se renderem. Serra é o Truman dos fumantes  kamikazes.
E eu? Vou ao supermercado comprar cigarros. Farei questão de pedir uma sacola plástica. Se isso é o melhor que nossos governantes conseguem fazer, vou embalar meu título de eleitor na sacola e jogá-lo fora.
No lixo orgânico.

P.S.: Obrigado a minha leitora paraense que deu a dica.

8 comentários:

  1. Excelente texto, como sempre. Concordo em td, inclusive com "Nada, exceto a repetição de velhos mantras ambientalistas e anti-consumistas. ".
    Não gosto de sacolas plásticas mas o q vai substituí-las e a que custo? E meu direito como consumidora em levar meus ítens (os quais estão cobertos e recheados de impostos que não voltam para o meu bolso) com um pouco de conforto? Mais uma vez, o estado paternalista resolve as questões por mim...Se vão proibir sacolas, que me venham com uma alternativa boa e sem custo.

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    1. A alternativa boa e sem custo é você se conscientizar de que tudo que consome vem da natureza e causa desmatamento e poluição, desde a extração/produção até o descarte final.

      Aí, ao se conscientizar, você poderá chegar à conclusão de que não custa nada você comprar uma daquelas sacolas de feira ou um carrinho de feira e deixar no porta malas do seu belo e poluidor veículo.

      Depois, quem sabe você se conscientiza um pouco mais e começa a reduzir seu consumo, reciclar, comprar produtos certificados e orgânicos, usar menos o carro, exigir tratamento do seu lixo e do seu esgoto, etc, etc...

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    2. Minhas perguntas em relação a suas afirmações são:
      - E se eu não quiser me "conscientizar"?
      - E se, apesar de eu concordar com a afirmação óbvia que utilizamos recursos naturais, eu não acreditar que estamos utilizando mais que podemos?
      - E se eu preferir um produto mais barato que os orgânicos?
      - Se eu quiser usar meu "belo e poluidor veículo" para ir até a esquina?

      Posso fazer tudo isso ou você acha que devo sofrer alguma sanção?

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    3. Não se obriga alguém a se conscientizar, nem a acreditar, tenta-se convencê-lo.

      O caso das sacolas é ínfimo perto do que podemos fazer para viver causando menos Impacto Ambiental - IA.

      É apenas o início da conscientização, pois acredito que a maioria simplesmente não tem noção do IA que causa e acha que ao "clicar" votando pela preservação na Amazônia já fez a sua parte.

      Sempre haverá quem não se conscientize ou não acredite. Se toda a humanidade tivesse consciência não haveria guerras, nem criminalidade, nem injustiças, etc.

      Eu sou contra proibir, qualquer coisa, exceto quando atinge o direito do outro.

      Se um indivíduo quer fumar (ou fazer qualquer outra coisa) isto é problema dele, mas quando quer fumar num recinto fechado e os outros que não fumam acabam tendo que inalar a fumaça que não querem, aí passou do limite, pois AFETOU O DIREITO DO OUTRO DE NÃO FUMAR, o que é inaceitável e aí não há outra opção senão coibir este desrespeito com os demais.

      Ou se ele fuma, por causa do fumo fica doente e a sociedade tem que arcar com as despesas do seu tratamento, aí também passou do limite, pois os demais irão pagar mais impostos ou irão pagar mais caro pelo seguro saúde, para cobrir os custos da doença causada pela sua decisão individual de fumar. A solução não é proibir e sim incluir o custo do tratamento da doença no preço do produto.

      Os orgânicos são apenas um exemplo. O produto com agrotóxicos só é mais barato porque seu preço não inclui o custo para compensar seu impacto ambiental, que vai ser pago pela sociedade.

      Cada um pode fazer o que quiser, desde que todos os produtos incluam nos seus preços o custo para compensar o impacto ambiental que causam.

      Seu veículo é o mesmo caso. No preço do combustível deveria estar incluído o seu custo ambiental e aí o problema é seu, e não dos outros, mas você seria incentivado a usar menos ou então o preço dos combustíveis limpos seriam competitivos.

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  2. Sr. David Schweitzer,

    Em primeiro lugar eu não sou um ambientalista irracional que quer impor ônus aos outros. Eu sou conservacionista que significa conservar "parte" da natureza "junto" com o homem.

    Aliás, pelo que li de suas outras postagens, concordamos em muita coisa e, provavelmente, não entendeu meus comentários.

    Eu sou um dos que lutam contra o atual Código Florestal de 1965 que quer impor aos proprietários de áreas rurais todo o ônus da Preservação necessária para compensar o impacto ambiental causado pelo consumismo irresponsável dos urbanos das classes médias e ricas.

    Par mim está claro, justo, racional, etc de que o ônus da conservação seja imposto aos que dão causa ao desmatamento e poluição, que são os consumidores irresponsávels, na proporção de seu próprio consumo.

    Ou seja, cada produto deve conter em seu preço o custo para compensar seu impacto ambiental e os recursos devem ser usados para que o Estado, representando a sociedade, tenha o ônus da Preservação, seja por unidades de Conservação seja no Pagamento JUSTO pelos Serviços Ambientais prestados pela áreas particulares preservadas como as RLs e APPs.

    O senhor foi no outro blog "afinalquemdevedecidirnossavida" responder meus comentários, mas não os publicou aqui no seu blog.

    Protesto contra esta censura não democrática.

    É ao senhor que se aplicam seus próprios comentários:
    1) sua visão de mundo é no mínimo despótica;
    2) você notou que não há um único argumento em todo seu texto aí em cima? Não há uma relação de causa e efeito, uma construção lógica. Nada, exceto a repetição de velhos mantras do individualismo sem noçâo

    Se não publicar meus comentários aqui no seu blog não lhe responderei mais, apenas deixo estas questões:

    O senhor tem noção de que tudo, absolutamente tudo, que consumimos vem da natureza e causa desmatamento e poluição desde sua extração/produção até seu descarte final?

    Você defende o consumismo irresponsável das populações urbanas das classes média e rica?

    Quem você acha que deve pagar o custo das ações necessárias para compensar o impacto ambiental causado desde a extração/produção até seu descarte final de cada produto que consumimos?

    Vinícius Nardi

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    1. Olá Vinicius,

      Já respondi sobre a questão dos comentários no blog do William (http://afinalquemdevedecidirnossavida.blogspot.com), inclusive assumindo minha ignorância sobre o que pode ter acontecido. Não é censura, e sim desconhecimento do funcionamento do sistema do blog (repare que ele não tem nem um ano). Espero resolver o problema em breve. Aparentemente se alguém faz um comentário usando a ferramenta do blogspot depois de alguém ter comentado com o facebook, os comentários do facebook somem. Você não foi o único afetado. Minha resposta a seu comentário também sumiu. Não há moderação de comentários aqui, e nenhum comentário é deletado por discordar de mim. Acho o contraditório salutar. Nos posts mais lidos verás alguns exemplos.

      Fico feliz que tenhamos pontos de convergência em nossas opiniões. Contudo, como você apontou e admito, sou um entusiasta do indivíduo. E, como tal, é minha opinião que nenhum direito difuso ou coletivo possa existir se conflitar com algum direito individual.

      Em relação a suas duas críticas numeradas:
      1) Acredito que sei melhor o que escrevi que você, mas fica o desafio: ache um texto meu em que eu seja "despótico". No texto em questão, minha linha de raciocínio é que há questões de maior prioridade (saneamento, criminalidade, tributação, desindustrialização) a se resolver que as sacolas plásticas. Se fui despótico, não notei.
      2) Se você ler o texto, notará que meu argumento é que há coisas mais importantes que merecem mais atenção do poder público que sacolas plásticas.

      Suas demais colocações são fruto do que chamo os três pilares do ambientalismo moderno:
      - Biocentrismo/misantropia;
      - a premissa de que temos um problema de superpopulação; e
      - a presunção de que há um "estado ideal da natureza".

      Estou preparando um texto a respeito, daí terás bastante o que comentar sobre o assunto. Se quiser, lhe mando um email avisando quando ele for publicado.

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    2. Quando citei seu comentário sobre "despótico" foi por causa do sumiço dos meus comentários e também por que no meu texto não há nada de despótico.

      O fato de existir coisas mais importantes não é argumento para invalidar uma boa iniciativa.

      Note que os supermercados não estão obrigando ninguém a fazer isto ou aquilo, pois as opções são várias e a critério de cada um.

      Eles apenas deixaram de fornecer um produto, as sacolas plásticas descartáveis, que causam Impacto Ambiental no seu descarte.

      Você pode inclusive ir comprar em algum outro lugar que as forneça.

      Provavelmente eles estão fazendo isto para se "pintarem" de verde, pois eles na verdade vivem de incentivar o consumismo que causa muito mais impacto ambiental do que as sacolas.

      Porém, o grande mérito desta iniciativa é levantar a discussão e mostrar que somos nós, na proporção do nosso consumo, que causamos desmatamento e poluição.

      Minhas colocações não são fruto de nada a não ser de minhas próprias reflexões, boas ou más, sobre a questão ambiental.

      Acho muito feio e atrapalha o debate esta atitude de colocar "rótulos" para tentar desqualificar a pessoa ou suas idéias, principalmente quando você não conhece a pessoa e apenas leu um ou dois comentários. Nada justifica agir desta forma.

      Ou você não sabe o que significa biocentrismo nem misantropia ou você não leu, ou não entendeu, o que escrevi.

      Sds,
      Vinícius Nardi

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