quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Depois da maior rodinha de violão, Rio+20 poderá ter o tribunal mais inútil do mundo

O senador Cristovam Buarque é uma daquelas figuras de quem não consigo ter antipatia. Minhas lembranças mais marcantes do senador são de sua passagem não tão memorável pelo ministério da educação e sua campanha presidencial monotemática pela educação. Porém, além do vício de falar sobre educação (e alguém é contra educação?), ele é repetitivo na sua prática como parlamentar. Só o vi defendendo projetos de cunho altamente oportunista, como a proposta de transformar corrupção em crime hediondo, a criação do "dia nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas" ou a proposta de obrigatoriedade dos filhos dos políticos estudarem em escolas públicas (e suas filhas estudaram em escolas particulares, como o Selso Costa me avisou). Ainda assim não consigo ter antipatia por ele.

Lembrança de infância
Toda vez que vejo o senador falando aquelas rematadas bobagens que ele costuma dizer, lembro de uma vez que fui com meus avós em um evento de arrecadação de fundos para um ansionato. O evento aconteceu no próprio ansionato, e me lembro de, com quase dez anos, achar simpáticos aqueles velhinhos sorridentes que tentavam pegar nos bustos e derrières das meninas que já haviam atingido a puberdade. Também era compreensível com aqueles que diziam que tudo era melhor antes, apesar de já naquela idade eu achar que vivia na melhor das eras.
Era salutar para aqueles velhinhos fingirem uns para os outros que o que faziam ou diziam significava alguma coisa. Por mais  inadequado fosse o que fizessem ou falassem, eu delegava em minha mente pueril uma certa licença para que eles fizessem aquilo. Não sei se por pena, se por respeito àqueles cabelos brancos ou só pela satisfação de saber que um dia eu também poderia ter um comportamento inadequado e inconveniente sem que ninguém me repreendesse.  E eu não era o único. Ninguém os repreendia.  Nem as meninas, que só riam do esforço inútil dos velhinhos que nunca atingiriam seu objetivo, mas gostavam de se exibir uns para os outros.

Voltando ao presente
Lembro disso pois vi um artigo do senador publicado em O Globo no qual ele ressuscita uma idéia estúpida daquele tempo em que "tudo era melhor" e a adapta aos tempos modernos. Nos idos da Guerra do Vietnã, Bertrand Russel criou uma farsa muito engraçadinha que Buarque, naquelas épocas estudando na França, deve ter achado uma ótima idéia: criou um tribunal de mentirinha para julgar crimes de guerra ocorridos no Vietnã (depois expandido para outras veredas). Se ele - como eu e os governantes americanos daquela época - só achasse essa idéia engraçadinha, tudo bem, mas o que o senador propõe? Leiam abaixo trechos do artigo:
Quarenta anos depois, outro senhor, ainda mais velho, está despertando os jovens do mundo para indignarem-se contra outra guerra também maldita: a guerra da má economia, que destrói a natureza, provoca desemprego, desarticula os serviços públicos, condenando, sobretudo, os jovens a uma vida sem futuro, como os jovens soldados americanos no Vietnã.
É Stéphane Hessel. Com um pequeno livro, intitulado "Indignai-vos", desperta os jovens em reação aos crimes contra a humanidade cometidos pelos responsáveis pela economia. Publicado em diferentes idiomas, o livro incentiva jovens em diversos cantos do mundo a ocuparem praças e ruas.
Para se transformar no Russell dos dias atuais, Hessel precisa dar um passo adiante e convocar o mundo para criar outro tribunal. Desta vez, para julgar os crimes contra a humanidade provocados pelo modelo econômico, pelo tipo de crescimento que constrói muros, exclui multidões, apartando os que têm dos que não têm acesso aos modernos bens e serviços. Um modelo econômico que escraviza a humanidade, uma parte pela dívida contraída para poder aumentar o consumo de bens supérfluos, a outra pelo desemprego que impede de consumir até os mais essenciais bens de consumo para uma sobrevivência digna.
O mundo tem um Tribunal de Haia que julga legalmente os crimes contra a humanidade: torturas e genocídios. Mas não tem um tribunal que, mesmo sem poder legal, tenha a força moral para dizer que também é crime contra humanidade destruir a natureza, tratar com irresponsabilidade o sistema financeiro internacional e as finanças dos governos, deixar os jovens sem emprego e os velhos sem aposentadoria. Na guerra do Vietnã, os alvos de Bertrand Russell eram o presidente americano e seus ministros da Defesa e do Sistema Industrial Militar. Hoje, seriam governantes das grandes potências, como o G-8 e Comunidade Européia, presidentes de Banco Centrais, ministros, banqueiros, especuladores e industriais, grandes construtoras.
O Tribunal Hessel seria um conjunto de pessoas como ele próprio e outros nomes com a força moral de pessoas como Gro Harlem Brundtland, da Noruega; Kumar Pachauri, Índia; Ricardo Lagos, Chile; Mário Soares, Portugal; Edgar Morin, França; Frederico Mayor, Espanha; Amartya Sen, Índia; Domenico De Masi, Itália; Sebastião Salgado, Brasil; Kofi Annan, Gana; Boutrous Boutros-Ghali, Egito; Helen Clark, Nova Zelândia; Desmond Tutu, África do Sul; Ignacy Sachs, França, entre outros homens e mulheres de consciência e respeito, que sem força do Estado, sem poder de polícia, nem política, apenas com a credibilidade moral diriam: BASTA de brutalidade do sistema econômico, como Russell disse um BASTA à brutalidade da guerra do Vietnã.
Bertrand Russell não tinha internet nem redes sociais. Ele precisava caminhar nas ruas. Russell não teve a chance de uma Cúpula como a ¨Rio + 20¨, quando a sociedade civil hoje, no lado de fora da sala do poder legal, poderá lançar o grito da força moral de Basta, com o simbolismo de criar o Tribunal Hessel para julgar os crimes contra a humanidade, cometidos em nome de um crescimento econômico imoral, ineficiente e vazio existencialmente.
Buarque é coerente
Já falei que detesto hipocrisia, por isso tenho uma certa condescendência com o senador Buarque. Ele é extremamente coerente com o anacronismo das idéias que defende e até com os métodos utilizados na época que "tudo era melhor". Enquanto Russel criou um tribunal cheio de seus amiguinhos esquerdistas, Buarque não fica atrás. Escala para o "Tribunal Hessel" uma penca de amiguinhos da ONU (na qual o senador participou de vários organismos), como Brundtland, Mayor, Annan, Clark, Boutros-Ghali, e por aí vai. Como o tal tribunal deve ser internacional e pegaria mal o senador se auto-indicar, quem ele escolheu como representante do Brasil? O fotógrafo Sebastião Salgado, nosso hagiógrafo dos pobres, de quem admito desconhecer as obras sobre direito internacional e economia. Buarque quer julgar os crimes do sistema capitalista convocando como juízes e júri aqueles que sempre foram e atuaram contra esse mesmo sistema. Além de poder promover um encontro de seus velhos amigos as custas de sei-lá-quem.

Buarque é meu velhinho tarado
Passados 20 anos, nunca voltei àquele ansionato de que falei no começo do texto. Apesar de não ser necessariamente velho (pelos termos politicamente corretos um homem na "melhor idade"), elegi Cristovam Buarque como meu "simpático velhinho tarado". Sempre que vejo alguém reclamando de alguma baboseira que ele profere, eu digo "deixa ele, não sabe mais o que faz", ou "tadinho, está gagá, não sabe o que fala". Pode parecer que estou sendo duro com ele, mas acreditem, é uma reverência ser tratado como café-com-leite. Tenho a impressão que grande parte do eleitorado pensa como eu. 
Não sei o que o senador pretende com a proposta de criação desse tribunal farsesco, nem o que será alcançado se eles de fato produzirem alguma coisa, mas sei que qualquer coisa que saia disso provavelmente será tratada como uma ata de reunião do ansionato de idéias falidas. 
O senador Cristovam, por mais que tenha largado o PT (ou como ele disse, que o PT o tenha abandonado) continua com suas idéias esquerdistas. Só que agora decidiu que não basta ser contra o capitalismo, pode ser também a favor do meio ambiente. E que palco melhor para defender qualquer causa boba que a Rio+20? Depois que o circo já foi armado com um acampamento de dez mil idiotas úteis, agora o senador Buarque quer criar um "tribunal" com duas dúzias de idiotas inúteis. 
Por isso digo: não critiquem o senador Buarque. Como os velhinhos que agarravam as bundas das menininhas, é muita iniciativa e nenhuma possibilidade de alcançar o objetivo, mas eles ficam satisfeitos se exibindo uns para os outros. Dá a eles uma sensação que ainda fazem algo útil. 

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