domingo, 12 de fevereiro de 2012

Desmatamento diminui. Brasil comemora, Ongolândia chora.

Fiquei espantado com essa notícia da Veja, da qual reproduzo trechos abaixo:
A Mata Atlântica, o mais desmatado dos biomas brasileiros, registrou taxa de abate da vegetação nativa próxima de zero entre 2008 e 2009, segundo o mais recente monitoramento por satélite, apresentado nesta quinta-feira pelo Ministério do Meio Ambiente. Seis dos estados que compõem o bioma não registraram nenhuma área desmatada maior que 4 hectares (40 quilômetros quadrados), limite de "visão" das imagens de satélites.
Na média, a Mata Atlântica, que reúne parte do território de quinze estados, teve 0,02% de desmatamento, ante 0,25% registrado entre 2002 e 2008. Até 2009, o bioma havia perdido 75,9% da vegetação nativa.
Em outros dois biomas que passaram a ter o desmatamento monitorado por satélites, o ministério também constatou queda no ritmo do desmatamento: o Pantanal perdeu 0,12% de sua vegetação nativa entre 2008 e 2009, e o Pampa, que já perdeu mais de metade (54,12%) de sua vegetação, registrou desmatamento de 0,18% no período.
"É uma boa notícia. O ritmo é muito menor que o registrado até 2008, mas a pressão ainda existe e precisamos aperfeiçoar a metodologia de monitoramento para orientar a fiscalização e a política de recuperação ou supressão legal da vegetação", disse a ministra Izabella Teixeira.
Monitoramento - A Amazônia e o Cerrado têm dados de monitoramento mais recentes, por serem os biomas que mais perdem vegetação nativa no país. O Cerrado é o recordista em desmatamento - perdeu, entre 2008 e 2009, 7 600 quilômetros quadrados de vegetação nativa ou 0,37% de sua área total. No mesmo período, a Amazônia perdeu 7 400 quilômetros quadrados de floresta, o equivalente a 0,17% de sua área.
Apesar dessas quedas, o comando da área ambiental do governo aponta preocupação com a dinâmica do abate da vegetação nativa. No Pantanal, por exemplo, o desmatamento que avançava nas bordas do bioma passou a ser registrado nas áreas mais centrais. Corumbá foi o município que mais desmatou.
 "É uma situação preocupante, comandada principalmente pela conversão da vegetação nativa em pastos para a criação de gado zebu", disse o secretário de Biodiversidade, Bráulio Dias, que deixou ontem o cargo para ocupar o posto de secretário executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica das ONU. 
Que surpresa boa!
Imagino que qualquer pessoa que como eu não é contra o meio ambiente (já me acusaram disso, como se eu fosse contra o oxigênio) acharia que essa notícia é muito boa. E o melhor, está sendo divulgada pela imprensa, o que também é bom. Pelo menos não somos somente bombardeados com as notícias apocalipticas plantadas pelas ONGs (ONU entre elas, claro) que o mundo vai acabar na próxima semana. 
Por sorte tive pais esclarecidos e que me ensinaram muito bem, senão compartilharia da idéia que a mata atlântica estava acabada, que tinha que visitar o cerrado e a amazônia antes que eles também se acabassem, e que o homem destruiria o planeta. Nos últimos anos, tive a oportunidade de visitar quase todos os biomas do país, e vi que essas previsões eram exageradamente catastróficas. 
Por mais que imaginasse e visse pelas imagens de satélite das regiões onde trabalhei que o desmatamento não era tão extenso quanto se pregava nos press releases das ONGs, por vezes imaginei que o pequeno  desmatamento que eu via era uma exceção. Achei que estava longe de onde o desmatamento acontecia, por isso minha percepção estava equivocada. Eu não via o desmatamento, por mais que o procurasse. Achei que estava olhando nos lugares errados.
Quando vi essa notícia da qual reproduzo um trecho acima, pensei "aí está um baita 'cala-boca'! " para as ONGs catastrofistas, mas continuei a leitura, e com o que me deparo? Com o trecho abaixo:
Na Mata Atlântica, Dias explicou que os dados oficiais divergem dos divulgados pela entidade SOS Mata Atlântica porque o ministério considerou o limite estrito do bioma e não apenas a vegetação de florestas. As informações deverão reforçar o apoio do governo à reforma do Código Florestal já aprovada pelo Senado, que prevê a recomposição de parte das áreas de preservação permanente desmatadas. A votação na Câmara está prevista para o início de março.
Limite Oficial - Para a SOS Mata Atlântica, apesar de os dados trazerem uma boa notícia, eles pedem algumas ponderações. De acordo com Márcia Hirota, diretora da entidade, o monitoramento não levou em conta os limites oficiais do bioma, definidos na Lei da Mata Atlântica, de 2006. Ela incluiu as chamadas matas secas de Minas Gerais, Bahia e Piauí, mas essas áreas ficaram fora do cálculo.
"São áreas protegidas por lei, mas que têm sofrido forte ameaça", diz. Segundo a ONG, nos últimos anos, os maiores desmatamentos do bioma vêm sendo observados justamente nessas regiões. Em nota oficial, a SOS Mata Atlântica também criticou o posicionamento da ministra Izabella sobre o Código Florestal: "Reforça o equívoco, pois, com a aprovação do atual texto, a Mata Atlântica estará irremediavelmente condenada".
Quanto pior, melhor
Como os leitores habituais devem ter reparado, eu sou sempre desconfiado de ambientalistas. Ou eles têm uma agenda oculta ou não sabem o que estão falando. Como falei no texto de ontem sobre o ONU, a maior ONG do mundo, não sei se quando os indicadores mostram resultados otimistas eles comemoram ou acham que a melhoria se deu por ação deles. No geral, eu acredito que para eles, "quanto pior, melhor". 
Esse é um dos grandes problemas do ambientalismo moderno: a falta de foco. Porém, os ambientalistas não podem perder aquela "causa pra chamar de sua". Então, mesmo que o problema no qual se baseia sua causa esteja aparentemente resolvido, é hora de achar alguma outra questão, outra causa a defender. E é isso que faz a representante da SOS Mata Atlântica: na falta de números que corroborem sua causa, procura outro problema. Afinal, ela precisa manter seu emprego, não é?  Nada contra alguém querer manter seu emprego ou resistir a evidências que mostram que sua escolha de carreira (no caso, proteger a mata atlântica) talvez tenha sido baseada em dados errados. Entendo essa boa intenção. Mas resolvi fazer umas contas. 

Aritmética 101
De posse desses dados da notícia, usei todos os conhecimentos ultra-avançados de aritmética que aprendi até a terceira série do primário para calcular por quantos anos os biomas se manteriam caso a taxa de desmatamento continuasse constante. O resultado é no mínimo animador:
  • Mata atlântica: a 0,02% de desmatamento anual, e considerando que 75,9% já haviam sido desmatados anteriormente, seriam necessários mais de 1200 anos para acabar com o bioma.
  • Pampa: considerando que 54,12% do bioma já foi "devastado", a uma taxa de desmatamento de 0,18% ao ano, seriam necessários mais de 250 anos para acabar com o bioma. 
Obviamente essas são contas simplificadas, mas não me parece que os biomas em questão estejam lá muito ameaçados ou que alguma intervenção é urgente.

Mudança de foco
Algo que pode passar despercebido a qualquer um que leia a notícia é a última frase do texto, na qual a SOS Mata Atlântica exerce toda a sua posição de profeta do apocalipse.  Reparem no que fala a representante da ONG:  "com a aprovação do atual texto [do novo Código Florestal], a Mata Atlântica estará irremediavelmente condenada".
Por mais que eu não seja um grande especialista em questões florestais, e sim um curioso minimamente informado, é de espantar que a mínima mudança que está sendo feita no Código Florestal (em minha opinião a mudança deveria ser maior e mais abrangente) vá "condenar" a mata atlântica. Não sei se o repórter estava com preguiça de perguntar a quê a mata atlântica estaria condenada ou se ele suprimiu alguma fala da representante da SOS Mata Atlântica, mas essa é uma dúvida que eu tenho.
Presumo que seja condenada a ser utilizada por aqueles que nela residem, produzem e dela se sustentam. Com exceção daqueles que se usam de sua destruição para seus próprios fins, aqueles para quem quanto pior, melhor. Até agora, não vi uma objeção sensata à mudança do Código Florestal na mata atlântica, no cerrado, na amazônia ou no pampa.
Os únicos contra a mudança do Código Florestal vivem na Ongolândia.


Nota de rodapé: Para saber mais sobre o debate a respeito do novo Código Florestal, visitem: www.codigoflorestal.com

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