segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A maior rodinha de violão do mundo

O que acontece quando se junta uma porção de boas intenções (daquelas que enchem o andar de baixo), dois dedos de desprezo pela democracia, duas colheres de ambientalismo, uma pitada de totalismo, 5 litros de ódio ao capitalismo e livre-mercado, tempera isso tudo com dinheiro público e serve para um público de militontos? A Cúpula dos Povos.
Imagino que a maioria dos leitores não saiba o que é isso. Eu também não sabia o que era até topar com o site desse negócio na internet. A primeira vista, é só um encontro paralelo à Rio+20, a ser realizado entre 15 e 23 de junho. Achei que até seria interessante ocorrer um encontro paralelo à tal conferência, já que não concordo com praticamente nada que se discutirá lá e não fui convidado. Ou melhor: achei interessante até ver o que é essa tal cúpula, quem a organiza e qual sua programação. Não vou discutir todos os absurdos que encontrei lá, até porque eles atualizam bastante o site, e pelo que vi, terei bastante assunto no futuro.

O que é esse evento?
Em uma página muito didática no site da "Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental" (esse é o nome oficial), eles mesmos explicam o que são e o que não são. 
A Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, contra a mercantilização da vida e em defesa dos bens comuns, é:
  • Um evento a ser realizado entre 15 e 23 de junho de 2012 no Aterro do Flamengo (Rio de Janeiro), organizado por entidades da sociedade civil brasileira e internacional.
  • Um contraponto à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD) – a Rio+2o oficial –, com críticas ao modo como os governos têm tratado as questões socioambientais e com propostas para evitar um colapso global.
  • Um evento paralelo e independente da Rio+20 oficial.
  • Crítica ao conceito de economia verde, palavra-chave da conferência oficial da ONU. A organização da Cúpula considera esse conceito insatisfatório para lidar com a crise do planeta, causada pelos modelos de produção e consumo capitalistas.
  • Uma oportunidade de tratar dos problemas enfrentados pela humanidade de forma efetiva.
  • Demonstração da força política dos povos organizados.
  • “Um espaço de experimentação e visibilização concreta das práticas que queremos ver no mundo.“
  • Anticapitalista, classista, antirracista, antipatriarcal e anti-homofóbica.
  • Um chamado para reinventar o mundo.
  • Um evento dos e para os povos.
  • Um espaço sem presença de corporações.
  • Uma afirmação do direito aos bens comuns.
  • Uma referência ao Fórum Global, evento organizado pela sociedade civil que aconteceu durante a Eco 92, a Cúpula da Terra, também no Aterro do Flamengo.
  • Parte de um processo de acúmulos históricos e convergências das lutas locais, regionais e globais.
A Cúpula dos Povos não é:
  • A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD). Ou seja, a Cúpula dos Povos não é a Rio+20 oficial, organizada pela ONU.
  • Ligada à Rio+20 oficial ou à Organização das Nações Unidas, de qualquer forma. Algumas organizações presentes na Cúpula também têm cadeiras na conferência oficial, mas o evento é em si autônomo e independente.
  • Um espaço de corporações ou de mercantilização da natureza.
  • Um lugar de falsas soluções, mas de soluções já criadas pelos povos para os problemas vividos hoje no planeta.
  • Intergovernamental, mas internacional.
  • Uma reafirmação da economia verde como solução para o desenvolvimento sustentável – ao contrário.
  • Mais do mesmo.
Essa auto-definição pelos organizadores parece-lhes meio sem propósito, algo como uma maçaroca de causas separadas na qual cada um escreveu uma linha e depois juntaram tudo em uma página da internet? Essa foi a impressão que eu tive, então fui buscar mais informações.

Quem são os organizadores?
Um evento contra tantas coisas precisa de alguém que o organize, não? Então quem é responsável por isso? O site da cúpula também tem uma página onde encontrei a lista abaixo:
  • Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong);
  • Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB);
  • Articulação do Semi-Árido (ASA);
  • Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)
  • Central Única dos Trabalhadores do Brasil (CUT);
  • Fórum Ecumênico ACT Brasil;
  • Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq);
  • Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen);
  • Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES);
  • Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS);
  • Fórum Nacional da Reforma Urbana (FNRU);
  • Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo do Fórum Social Mundial (Grap);
  • Grupo de Trabalho Amazônico (GTA);
  • Forum Nacional de Entidades Civis de Defesa do ConsumidorInstituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (FNECDC);
  • Jubileu Sul;
  • Kari-Oca;
  • Marcha Mundial de Mulheres;
  • Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca);
  • Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais (Rede Brasil);
  • Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea);
  • Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip);
  • Rede Cerrado
  • Rede da Juventude pelo Meio Ambiente e Sustentabilidade (Rejuma);
  • Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA);
  • Via Campesina (VC);
Até aqui eu já estava espantado. Mas forte de estômago como sou, passei para a programação do evento. 

A programação
A agenda do evento ainda não é definitiva, mas pelo quadro apresentado no site dá pra ter uma idéia do que será feito.

15 e 16 de junho: Atividades organizadas pelos movimentos sociais locais, que estão em luta permanente de resistência aos impactos das grandes obras.
17 de junho: Marcha de abertura da Cúpula dos Povos.
18 e 19 de junho: Atividades autogestionadas e Assembleia Permanente dos Povos.
20 de junho: Dia de Mobilização Internacional. Uma grande manifestação no Rio de Janeiro e em várias cidades do Brasil e do mundo para expressar a luta dos povos contra a mercantilização da natureza e em defesa dos bens comuns
21 e 22 de junho: Atividades autogestionadas e Assembleia Permanente dos Povos.
23 de junho: Mensagem final da Cúpula dos Povos, que expresse os acúmulos e acordos construídos pelos povos em luta por justiça social e ambiental.
Minhas impressões
O que interpretei do que li é que essa cúpula nada mais é que uma reunião de pretensos revolucionários, ecochatos, biodesagradáveis, índios, feministas, comunistas, gayzistas, camponeses que não sabem segurar uma enxada, sindicalistas e por aí vai. O que os une não é nada relacionado com o ambiente. Cada um deles defende seus próprios interesses usando uma desculpa aparentemente nobre para isso. O único ponto de convergência é que todos, sem exceção, são contra o capitalismo e o estado democrático de direito.  Alguém além de mim notou que não há uma única referência a "ciência" nesse evento? Ninguém quer discutir questões ambientais. Entre o que é a tal cúpula e seus participantes, há mais ódio ao estado democrático de direito e menos intelectualidade que no PCC. Ao menos Marcola leu Nietzsche, Santo Agostinho, Victor Hugo e Voltaire.
Não achei nenhum lugar que diga quantas pessoas participarão de fato do evento, mas no site do MMA há uma reprodução de um texto do Valor Econômico onde se lê:.
As estimativas são de ter 10 mil pessoas acampadas, mas não no Aterro, em parques próximos. Em 1992, o uso intenso da área estragou a grama. O Aterro é patrimônio, e a negociação com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pressupõe que as áreas gramadas não podem ser usadas e, se houver estragos, as ONGs terão que arcar com o custo da restauração. O plano prevê um acampamento com 5 mil jovens, outro com 2 mil camponeses, e dois espaços com 800 e mil índios.
Esse é de fato um feito louvável. Dez mil pessoas! Eu já sofro para receber 30 pessoas na minha festa de aniversário. Fui obrigado a procurar como eles fariam isso. Achei então uma entrevista de Fátima Mello, um dos membros do comitê organizador do evento, onde ela diz:
O abastecimento alimentar da Cúpula dos Povos, com cerca de 10 mil acampados, será feito pela produção familiar e camponesa. Teremos um espaço de mídia digital livre, além de trocas aceitas através da economia solidária; haverá geração de energia limpa; todo o tratamento do lixo será feito pelo movimento de catadores.
Achei a solução para minhas festas. O que falta é comprar insumos da produção familiar e camponesa, usar só energia limpa e tratar o lixo pelo movimento de catadores.  Um monte de falácias! Alimentar dez mil pessoas concentradas por nove dias com "produção familiar e camponesa"? Quem cuidará dessa logística? Utilizar só energia limpa? Se for energia do Sistema Interligado Nacional, pode ter certeza que algo ali virá de uma térmica a combustível fóssil. E a pior mentira de todas: "todo o tratamento do lixo será feito pelo movimento de catadores"? Em todos os lugares em que estive, catadores coletam majoritariamente - quando não exclusivamente - papelão e alumínio. Ou alguém já viu catador levar seu lixo orgânico? Essa é uma utopia tão boba e desconectada da realidade quanto o sonho deles de acabar com o capitalismo.
Já na programação do evento, o negócio fica ainda mais sério. É como uma admissão que ninguém, nem mesmo - e especialmente - os organizadores, sabe o que se fará lá. A tabela abaixo mostra minha leitura e tradução da programação:


Data
Atividades programadas
Tradução
15 e 16 de junho
Atividades organizadas pelos movimentos sociais locais, que estão em luta permanente de resistência aos impactos das grandes obras
Dois dias de baderna, sexo casual e consumo de entorpecentes enquanto se fala mal das obras que permitem o conforto dos mimados
17 de junho
Marcha de abertura da Cúpula dos Povos
Baderna e consumo de entorpecentes na rua, reclamando do capitalismo e da democracia que permite que esse evento ocorra
18 e 19 de junho
Atividades autogestionadas e Assembleia Permanente dos Povos
Cada um faz o que quer por dois dias enquanto o pessoal de ressaca discute  porque “tudo que está aí” está errado
20 de junho
Dia de Mobilização Internacional. Uma grande manifestação no Rio de Janeiro e em várias cidades do Brasil e do mundo para expressar a luta dos povos contra a mercantilização da natureza e em defesa dos bens comuns
Passeio pela orla. Banho de mar e consumo de entorpecentes no Posto 9 a favor do livre plantio e consumo de herbáceas
21 e 22 de junho
Atividades autogestionadas e Assembleia Permanente dos Povos
Cada um faz o que quer por dois dias enquanto o pessoal de ressaca chega à conclusão que a culpa de tudo é do capitalismo
23 de junho
Mensagem final da Cúpula dos Povos, que expresse os acúmulos e acordos construídos pelos povos em luta por justiça social e ambiental
Toneladas de lixo, pontas de baseado, garrafas de bebida e umas 20 páginas de copia-e-cola do que os organizadores já haviam decidido que seria a conclusão da cúpula.


Resumo da ópera
Computando o que é (na definição deles) essa cúpula, a aparente heterogeneidade dos organizadores e a (falta de) programação, já dá pra saber o que será de fato esse evento: um circo criado para tentar legitimar a proposta esquerdista de "outro mundo possível". Outro mundo onde eles decidem o que é melhor para você, para sua família, para sua carreira, para a economia e para o planeta. Essa proposta já está redigida há anos. Esse circo é só pra divertir os idiotas úteis que voltarão para casa com a satisfação que fizeram mais que se entorpecer e conceber uma leva de bastardos da Rio+20.
Quem lê meus textos já deve ter notado que tenho um hábito repetitivo de sempre perguntar: quem paga por isso? Nesse caso, faço minhas as palavras do fictício Capitão Nascimento: "é você que financia essa p... toda!" E o pior, se formos estudar o léxico ambientalista, veremos que tudo esse povo defende significa mais poder para eles e menos liberdade para você, que financia "essa p... toda".
Enquanto a intelligentsia esquerdista solapa sua liberdade, você financia a maior rodinha de violão do mundo.

Um comentário:

  1. esse tipo de organização para virar 'quadrilha' basta um passo, ou só uma nota de violão.

    as atitudes individuais podem ser pequenas, mas não podemos deixar de fazer.

    abç, lê

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