quinta-feira, 5 de abril de 2012

Perdeu o juízo, e lhe falta conhecimento

Depois da irmã Wenzel, que critiquei em um texto de janeiro (aqui) pelo maior número de pecados por minuto de entrevista, achei que minha parcela de contribuição ao clero tinha acabado. Aparentemente não. Hoje li uma notícia no site da Fiocruz, na qual o deputado Padre João fala contra os agrotóxicos em uma entrevista (leiam aqui). Comento abaixo trechos da entrevista:

Brasil é o campeão no consumo de agrotóxicos
Infelizmente somos os campeões no consumo de agrotóxicos, e esse título não gostaríamos nunca de carregar. Levando-se em conta toda a América Latina, 80% de todo o agrotóxico é consumido aqui no Brasil, apesar de haver outros países vizinhos com produção agropecuária, como a Argentina. 
O Brasil é o campeão do consumo de agrotóxicos na América Latina. Se o Brasil não fosse o maior país da América Latina, talvez essa informação viesse como uma surpresa. É como afirmar que o céu é azul. Mas o daltonismo moral e a cegueira científica do Padre João não permitem que ele pesquise corretamente os dados. Ora, em números absolutos seria muito difícil mesmo que o Brasil, com a maior produção, utilizasse menos agrotóxicos. Como sou um cético, resolvi procurar no anuário estatístico da Food And Agricultural Organization (FAO) da ONU dados comparativos entre os países da América Latina. Lá há um dado muito interessante: uso de pesticidas por hectare de terra arável. Um dado que, mesmo não sendo o ideal, dá uma dimensão do uso em cada país. Vejam os resultados que extraí da tabela que você pode baixar do site da FAO (aqui):

Consumo de pesticida por hectare de terra arável (2000)
País
Consumo (kg/ha)
Bahamas
111.6
Belize
13.1
Bolívia
0.0
Brasil
1.9
Colombia
33.4
Costa Rica
105.6
Equador
12.0
Haiti
0.0
Honduras
3.6
México
2.3
Nicarágua
3.8
Panamá
2.8
Paraguai
2.3
Peru
1.2
República Dominicana
7.7
St. Kitts & Nevis
2.9
Suriname
5.3
Uruguai
5.2
Fonte: FAO (link para a tabela original aqui).

Nota-se, pela tabela acima, que nem todos os países forneceram dados para a pesquisa da FAO, que é voluntária. Mas o mais notável é que o Brasil não é o campeão de uso de pesticidas por hectare. Dos 18 países da América Latina que forneceram dados para a FAO, o Brasil só tem consumo por hectare maior que três deles. Fiz essa pesquisa em menos de 30 minutos. O padre João afirmar que o Brasil é o campeão no uso de agrotóxicos é, na melhor das hipóteses, ignorância, e na pior, desonestidade.

Contra a academia
É um absurdo a própria academia insistir na tese de que há níveis toleráveis de agrotóxicos e que essas quantidades não têm efeito negativo em nossa saúde, se nós ingerimos alimentos com diversos tipos de agrotóxicos e tudo isso se reúne em nosso organismo. 
Eu tenho algumas críticas ao ambiente acadêmico brasileiro, mas como não sou bobo, não tento dizer a um especialista em sua respectiva área o que ele deve pensar, ou quais os resultados de sua pesquisa. Já o Padre João acha que possui mais conhecimento científico que pesquisadores que dedicaram boa parte de suas vidas a pesquisar esse assunto.

Se a fiscalização é ruim, a solução são mais leis
Por outro lado, as legislações que existem sobre pulverização aérea, por exemplo, e o próprio receituário agronômico não são cumpridas e não há uma fiscalização. O aparato fiscalizador do nosso país chega a ser ridículo. Temos 90 técnicos capacitados para isso, somando os profissionais da Anvisa, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Ministério da Agricultura e Pecuária. E dentro desses 90, menos de 50 efetivamente fiscalizam. Isso para um país continental, onde a agricultura e a pecuária são muito fortes, não é nada, não dá para atender nem uma unidade da federação. Então, temos que aprimorar a legislação. 
O deputado Padre João finalmente acerta um diagnóstico: a legislação não é cumprida e não há fiscalização. Porém, fiel à tradição do movimento ambientalista-melancia, já nos apresenta uma solução errada: mudar a legislação. Ora, se existem leis que regulamentam a pulverização aérea e a emissão do receituário agronômico e o número de fiscais é, nas palavras do deputado "ridículo", a solução obviamente não seria criar um novo arcabouço jurídico, e sim melhorar a fiscalização. Essa lógica é mais fácil que rezar o pai-nosso. 

As intenções começam a se revelar
Precisamos de uma posição do governo federal, junto com o Congresso, para banir de vez a utilização de agrotóxicos. Por isso, é urgente avançarmos na pesquisa e na assistência técnica para produção agroecológica. 
Ah, então o deputado quer banir a utilização de agrotóxicos? Eu já achava que era uma bobagem incrível aquela idéia de desmatamento zero do Greenpeace (leia aqui), mas considerando a origem da idéia, até acho que peguei leve com eles. Já essa idéia de produzir alimentos sem agrotóxicos é, no mínimo, tóxica. A própria hipótese que voltemos aos níveis de produtividade agrícola da década de 1950 é um absurdo dificilmente superado por outras bobagens ambientalistas. Na verdade, me espanta que o deputado ainda ostente uma posição eclesiástica. Imaginei que a igreja iria tentar purgar seus maus elementos, em especial um que quando fala, não cita a multiplicação dos pães e peixes, mas a diminuição da comida das pessoas. 

A origem do "pensamento" do Padre João
Já falei para vocês que muitas vezes me entedio com as notícias que saem sobre ambiente na imprensa. Periodicamente, tudo parece uma repetição de algo que já li antes, como se ocorresse uma repetição dos mesmos mantras ambientalistas pseudo-científicos. Mas nesse caso em particular, eu lembrei de outra notícia que li, e que trazia as mesmas opiniões. Vejam abaixo:
De acordo com o ativista, que lançou no ano passado a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, o Brasil deveria proibir totalmente o uso desse tipo de produto [agrotóxicos].
“O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil não tem a ver com necessidade agronômica, com condições climáticas, mas com o modelo atual do agronegócio, para conseguir produtividade e lucro máximos. Por isso, é preciso conscientizar a população para que, num processo de transição, cheguemos à [condição de] não utilização de nenhum tipo de veneno agrícola”, avaliou.
...destacou que o Brasil é apontado como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Segundo ele, o consumo médio anual no país é 5,4 litros dessas substâncias por habitante e para cada hectare cultivado são utilizados 16 litros de agrotóxicos. 
“Não há cientista ou agrônomo que consiga justificar que, mesmo numa agricultura tropical, sejam necessários 16 litros de veneno para cultivar 1 hectare”, lamentou. 
...a saída para a produção de alimentos saudáveis é o desenvolvimento da agroecologia...
Vocês notaram as coincidências?
  1. Ambos dizem que o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo.
  2. Ambos defendem a abolição dos pesticidas na agricultura. 
  3. Ambos utilizam dados errados, ou mentem descaradamente.
  4. Ambos não confiam nos cientistas.
  5. Ambos defendem a agroecologia.
Sabem quem é essa outra pessoa que compartilha das mesmas idéias que o Padre João? Ninguém menos que João Pedro Stédile, o "coordenador" do MST, e um dos maiores inimigos da agricultura (e das leis) brasileiras. E adivinhem onde ele falou tudo aquilo que vai acima em vermelho, senão na mesma Fiocruz que publicou a entrevista com o Padre João. Duvidam? Vejam a notícia sobre Stédile aqui.
Pesquisando mais sobre a trajetória do Padre João, encontrei várias intersecções entre ele e o MST, a exemplo do apoio descarado à campanha do MST contra agrotóxicos, a participação no Encontro Estadual dos Sem Terrinha de MG (eu acho horroroso usar crianças para defender uma agenda política), e manifestações do MST

Padre João escreve errado por linhas tortas
Padre João é mero despachante do MST na Câmara, mas ele não seria o primeiro parlamentar a fazer isso. Um detalhe que eu propositalmente não citei anteriormente é em qual comissão parlamentar o Padre João atuou para criar (a mando do MST, obviamente) a Subcomissão Especial sobre Uso de Agrotóxico (é sério, ela existe). Darei algumas opções abaixo e vocês tentam adivinhar:
  1. Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural
  2. Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática
  3. Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
  4. Comissão de Seguridade Social e Família
Acertou quem votou na mais improvável: a Subcomissão que discute o uso dos agrotóxicos no país é subordinada a... Comissão de Seguridade Social e Família! Afinal, qual o motivo de discutir um assunto desses na Comissão de Agricultura, de Ciência e Tecnologia, ou mesmo de Meio Ambiente? Na Câmara, quem entende de agrotóxicos são os ilustres deputados da Comissão de Seguridade Social e Família. Imagino que em qualquer comissão que discutisse seriamente agricultura, ciência ou meio ambiente, as idéias do Padre João MST seriam sumariamente rechaçadas e expostas ao ridículo. 

"Não terás outros deuses diante de mim." (Bíblia Sagrada da CNBB - Deuteronômio 5:7) 
Se a Igreja Católica ainda tivesse alguma vergonha na cara e não estivesse tomada pelo pensamento da esquerda bocó, excomungaria Padre João.  A batina não é compatível com um boné do MST.  Em vez de oferecer a eucaristia, quer subtrair a comida do prato da população. Ele foi ordenado pela igreja fundada por São Pedro, mas segue as palavras de outro Pedro, o Stédile. Sobe no altar católico, mas se ajoelha para outros senhores. Voltando à Bíblia: "É gente que perdeu o juízo, a quem falta o conhecimento."  (Deuteronômio, 5:28)  
Para os católicos, Padre João envergonha a batina. Para os eleitores, envergonha a legislatura. 

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