quinta-feira, 26 de julho de 2012

Belo Monte: Polícia neles!

Como já é de praxe em Belo Monte e onde quer que haja conflitos com indígenas no Brasil, a inimputabilidade reina novamente. Vejam abaixo trechos de notícia publicada do site do Estadão:
Três engenheiros da área socioambiental da Norte Energia, empresa responsável pela construção e operação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte em Altamira do Pará, são reféns desde a manhã da terça-feira pelos índios Juruna e Arara na Aldeia Maratu, no Pará. Além deles, estão no local, segundo a assessoria da Fundação Nacional do Índio (Funai), dois servidores "que auxiliam numa possível negociação, se for o caso". A entidade ficou de emitir uma nota sobre a situação.
Os índios teriam ficado "irritados com as explicações extremamente técnicas e de impossível compreensão dos engenheiros". "Havia também um clima de completa descrença dos índios na empresa, uma vez que nenhuma das condicionantes que a Norte Energia deveria ter realizado para minimizar os impactos das obras nas aldeias foi cumprida até agora", explica Thais Santi, procuradora do Ministério Público Federal (MPF).
A liderança indígena da TI Paquiçamba, Giliarde Juruna, disse que os engenheiros não souberam explicar como ficará o banzeiro (deslocamento das ondas) do rio, como os índios farão para navegar, e nem o que tinha mudado no projeto desde a primeira versão que eles apresentaram no ano passado. Segundo ela, os próprios engenheiros teriam admitido que os indígenas estavam certo. "Mas nós não vamos dar moleza não. Hoje, a voadeira que foi levar comida para eles ficou detida, e quem for para a aldeia, vai ficar. Só vamos liberar a imprensa", afirmou Giliarde, em nota do Movimento Xingu Vivo.
O lado "deles"
Vejam trechos do que foi publicado dia 24/07 no site do Movimento Xingu Vivo:
A primeira reunião foi programada para esta segunda, 23, na aldeia Muratu, com a presença de indígenas juruna da Terra Indígena Paquiçamba e dos arara da aldeia Arara da Volta Grande. De acordo com o Ministério Público Federal, que esteve presente, logo no início das explanações os indígenas já manifestaram desacordo com o processo, uma vez que as explicações dos engenheiros eram extremamente técnicas e de impossível compreensão.
Antecedentes
Os grupos indígenas que deveriam ser consultados sobre o barramento do rio esta semana foram os mesmos que ocuparam a ensecadeira de Pimental por 21 dias a partir do final de junho, para cobrar o cumprimento das condicionantes indígenas. A falta de qualquer resposta da empresa ao documento encaminhado à direção da Norte Energia após o processo de negociação da desocupação da ensecadeira contribuiu para a descrença generalizada nas promessas e propostas do consórcio, afirmaram os indígenas. “Passaram 20 dias desde a última reunião e a Norte Energia não fez absolutamente nada”, diz Giliarde.

Polícia neles!
Então quer dizer que se alguém não gosta de uma explicação, pode sequestrar as pessoas que estão tentado explicar o seu trabalho? E isso tudo foi feito sob o olhar complacente de dois servidores da FUNAI e de representantes do Ministério Publico Federal? Mesmo que os funcionários da FUNAI e do MPF não pudessem reagir e libertar os três funcionários mantidos em cárcere privado, o mínimo que deveriam fazer era comunicar às autoridades competentes (a FUNAI não se enquadra aí, obviamente) que um crime estava ocorrendo. E isso porque são os mesmos delinquentes que invadiram o canteiro de obras a menos de um mês. Está nas notícias, mas já que a polícia parece não saber, eu digo: eles estão na aldeia Muratu, Terra Índígena Paquiçamba. 
Em um país civilizado, a policia já teria se deslocado para o local a fim de libertar os funcionários da Norte Energia e prender os responsáveis pelo crime. Mas aqui é o Brasil. Indígenas são inimputáveis. Duvidam? Lembram do caso do Engº Paulo Fernando Rezende, que foi violentamente agredido em uma reunião sobre Belo Monte (veja aqui)? Ninguém foi preso, ninguém foi condenado.
Aqui no Brasil, o MPF e FUNAI, que deveriam zelar pelo cumprimento da lei, estão do lado dos bandidos.  E um crime anunciado pelos cúmplices dos perpetradores e pela imprensa é tratado como uma manifestação legítima, e não como o que realmente é: uma ocorrência policial.

Dois passos para trás

Retorno aqui ao assunto que abordei em um texto dessa semana (aqui): a Portaria 303/2012 da AGU, aquela que acabava com um monte de mamatas da FUNAI.
Vejam o que saiu no Diário Oficial da União de hoje:
PORTARIA No 308, DE 25 DE JULHO DE 2012
Altera o disposto no art. 6º da Portaria nº 303, de 16 de julho de 2012.
O ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO, no uso das atribuições que lhe conferem o art. 4º, incisos X e XVIII, da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993, considerando o teor do Ofício nº 260/GAB/PRES-Funai, de 23 de julho de 2012, em que a Fundação Nacional do Índio - FUNAI solicita prazo para a oitiva dos povos indígenas sobre o tema e, conforme a NOTA N.º 24/2012/ DENORCGU, aprovada pelo Despacho Nº 1037 CGU/AGU, resolve:
Art. 1º O art. 6º da Portaria nº 303, de 16 de julho de 2012, passa a vigorar com a seguinte redação:
"Art. 6º. Esta Portaria entra em vigor no dia 24 de setembro de 2012." (NR)
Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
LUÍS INÁCIO LUCENA ADAMS
Comento
Se lembram que eu escrevi que os únicos que perdiam com a Portaria 303/2012 eram "os mesmos que exploram e dependem do índio tutelado, sem independência e vivendo em TIs como um sub-humano que precisa ser atendido, que não pode conseguir o que quer que seja por seus próprios meios."? Bom, adivinha quem pediu a prorrogação do prazo, senão a própria FUNAI? Além do mais, qual a justificativa para postergar a data a partir da qual a portaria vigora? Ouvir os índios.
As condicionantes das quais trata a Portaria 303/2012 foram determinadas pelo STF. Já que elas não afetam somente os indígenas, mas a totalidade da população, que paga pelas benesses dadas aos índios, por que estamos consultando-os? Se eu entendi bem o negócio é o seguinte: 
  • Nós temos nossa defesa ameaçada pois as forças armadas não podem entrar em Terras Indígenas  ou construir bases de apoio sem autorização; 
  • Nossa infraestrutura é pior ou mais cara porque linhas de transmissão e estradas não podem cruzar Terras Indígenas;
  • Quando uma estrada cruza Terras Indígenas ainda temos que pagar pedágio para os índios que não contribuíram para a construção daquela estrada;
  • Nós somos rendidos pelas armas contrabandeadas pelas Terras Indígenas em fronteiras;
  • Nós pagamos a conta dessas mamatas que ocorrem em Terras Indígenas.
E eles são consultados? Não você e eu?
Institucionalmente, o Brasil é curioso. Temos uma dinâmica interessante: para cada passo à frente, damos dois para trás.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Índios merecem cidadania plena

A Advocacia Geral da União (AGU), seguindo a decisão do STF, colocou novas normas para a criação e ampliação de Terras Indígenas (TIs) no país, por meio da Portaria 303/2012 da AGU (íntegra aqui). Em resumo, a portaria diminui o poder da FUNAI para decidir sobre as TIs, e estabelece que o interesse público e de defesa da nação se sobrepõem aos direitos dos indígenas.
Esse post será grande, mas vale comentar pontualmente a portaria, que segue abaixo:

PORTARIA Nº 303, DE 16 DE JULHO DE 2012
Dispõe sobre as salvaguardas institucionais às terras indígenas conforme entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal na Petição 3.388 RR.
O ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO, no uso das atribuições que lhe conferem o art. 87, parágrafo único, inciso II, da Constituição Federal e o art. 4º, incisos X e XVIII, da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993, e considerando a necessidade de normatizar a atuação das unidades da Advocacia-Geral da União em relação às salvaguardas institucionais às terras indígenas, nos termos do entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal na Petição 3.388-Roraima (caso Raposa Serra do Sol), cujo alcance já foi esclarecido por intermédio do PARECER nº 153/2010/DENOR/CGU/AGU, devidamente aprovado, resolve:
Os indígenas e indigenistas já ficaram todos alvoroçados com a emissão, inclusive com alguns mais exaltados  falando que o advogado-geral da União, Luis Adams é o "advogado do diabo". Contudo, apesar das respostas revoltadas (aqui, aqui, aqui e aqui), não adianta se revoltarem contra a portaria. Ela somente obedece a decisão do STF na Petição 3.388-RR. O que vão propor agora? Fechar o Supremo?
Art. 1º. Fixar a interpretação das salvaguardas às terras indígenas, a ser uniformemente seguida pelos órgãos jurídicos da Administração Pública Federal direta e indireta, determinando que se observe o decidido pelo STF na Pet. 3.888-Roraima, na forma das condicionantes abaixo:
"(I) o usufruto das riquezas do solo, dos rios e dos lagos existentes nas terras indígenas (art. 231, § 2º, da Constituição Federal) pode ser relativizado sempre que houver, como dispõe o art. 231, 6º, da Constituição, relevante interesse público da União, na forma de lei complementar".
"(II) o usufruto dos índios não abrange o aproveitamento de recursos hídricos e potenciais energéticos, que dependerá sempre de autorização do Congresso Nacional".
Eu não contei para vocês, mas um indivíduo foi negociar com uma população indígena sobre a permissão dos índios para construir uma hidrelétrica no rio que margeava a TI em que eles viviam. O cacique falou com o pajé, que por sua vez disse que era preciso consultar o espírito da cachoeira. Depois de meia hora de dança e sopros em uma flauta rudimentar à base da cachoeira, o pajé retornou e conversou (em sua língua nativa) com o cacique, que olhou para o negociador da empresa interessada em fazer a hidrelétrica e disse; "O espírito da cachoeira falou que R$ 100mil por mês e pode construir a hidrelétrica". 
"(III) o usufruto dos índios não abrange a pesquisa e lavra das riquezas minerais, que dependerá sempre de autorização do Congresso Nacional assegurando-lhes a participação nos resultados da lavra, na forma da Lei".
"(IV) o usufruto dos índios não abrange a garimpagem nem a faiscação, devendo, se for o caso, ser obtida a permissão de lavra garimpeira".
Acabou a estória de mané extraindo minério em Terra Indígena em troca de cachaça pros índios. Agora o minerador precisa das devidas autorizações, e o índio tem que comprar sua própria cachaça. Ou trabalhar pra ganhar o dinheiro da cachaça, como todos nós. 
"(V) o usufruto dos índios não se sobrepõe ao interesse da política de defesa nacional; a instalação de bases, unidades e postos militares e demais intervenções militares, a expansão estratégica da malha viária, a exploração de alternativas energéticas de cunho estratégico e o resguardo das riquezas de cunho estratégico, a critério dos órgãos competentes (Ministério da Defesa e Conselho de Defesa Nacional), serão implementados independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à FUNAI".
"(VI) a atuação das Forças Armadas e da Polícia Federal na área indígena, no âmbito de suas atribuições, fica assegurada e se dará independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à FUNAI".
Com a quantidade de TIs em áreas de fronteira, essa decisão é de grande importância para o país. As forças armadas não precisam de autorização dos índios ou da FUNAI para defender o território. Ao mesmo tempo, Terras Indígenas não serão mais ponto de entrada de drogas, armas, imigrantes e todo tipo de contrabando; nem ponto de escoamento de madeira ou minério ilegal. Deveria ser assim desde a Constituição.
"(VII) o usufruto dos índios não impede a instalação, pela União Federal, de equipamentos públicos, redes de comunicação, estradas e vias de transporte, além das construções necessárias à prestação de serviços públicos pela União, especialmente os de saúde e educação".
Finalmente! Já vi exemplos de traçados de linhas de transmissão e estradas serem desviados por quilômetros para evitar cruzar Terras Indígenas. Para projetos de interesse nacional, que eles respondam às mesmas leis que toda a população.
"(VIII) o usufruto dos índios na área afetada por unidades de conservação fica sob a responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade".
"(IX) o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade responderá pela administração da área da unidade de conservação também afetada pela terra indígena com a participação das comunidades indígenas, que deverão ser ouvidas, levando-se em conta os usos, tradições e costumes dos indígenas, podendo para tanto contar com a consultoria da FUNAI".
"(X) o trânsito de visitantes e pesquisadores não-índios deve ser admitido na área afetada à unidade de conservação nos horários e condições estipulados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade".
Mais trabalho para o ICMBio. Que, convenhamos, não faz lá muita coisa mesmo.  
"(XI) devem ser admitidos o ingresso, o trânsito e a permanência de não-índios no restante da área da terra indígena, observadas as condições estabelecidas pela FUNAI".
"(XII) o ingresso, o trânsito e a permanência de não-índios não pode ser objeto de cobrança de quaisquer tarifas ou quantias de qualquer natureza por parte das comunidades indígenas".
Não são raros relatos de "pedágios" cobrados pelos índios para o trânsito em estradas que cruzam TIs. E isso acontecia e acontece sob o olhar complacente da FUNAI. Notem: essas estradas foram pagas por você. Isso tinha que acabar. 
"(XIII) a cobrança de tarifas ou quantias de qualquer natureza também não poderá incidir ou ser exigida em troca da utilização das estradas, equipamentos públicos, linhas de transmissão de energia ou de quaisquer outros equipamentos e instalações colocadas a serviço do público, tenham sido excluídos expressamente da homologação, ou não".
Não sei ainda se isso se aplica às hidrelétricas, mas se elas forem caracterizadas como "instalação a serviço do público" acabou a mamata para a tribo do "espírito da cachoeira".
"(XIV) as terras indígenas não poderão ser objeto de arrendamento ou de qualquer ato ou negócio jurídico que restrinja o pleno exercício do usufruto e da posse direta pela comunidade indígena ou pelos índios (art. 231, § 2º, Constituição Federal c/c art. 18, caput, Lei nº 6.001/1973)".
"(XV) é vedada, nas terras indígenas, a qualquer pessoa estranha aos grupos tribais ou comunidades indígenas, a prática de caça, pesca ou coleta de frutos, assim como de atividade agropecuária ou extrativa (art. 231, § 2º, Constituição Federal, c/c art. 18, § 1º. Lei nº 6.001/1973)".
Pode parecer um contrasenso, visto que em outros países - dos quais os EUA são emblemáticos nesse sentido - os índios podem cobrar para emitir licenças para caçadores, e ainda faturam uma grana hospedando-os em hotéis dentro de suas terras. Acho que isso foi incluso seguindo a lógica do: "quer viver como índio, então viva como índio". O que é justificado.
"(XVI) as terras sob ocupação e posse dos grupos e das comunidades indígenas, o usufruto exclusivo das riquezas naturais e das utilidades existentes nas terras ocupadas, observado o disposto nos arts. 49, XVI e 231, § 3º, da CR/88, bem como a renda indígena (art. 43 da Lei nº 6.001/1973), gozam de plena imunidade tributária, não cabendo à cobrança de quaisquer impostos, taxas ou contribuições sobre uns e ou outros".
Que tal algum imposto pelos serviços públicos colocados à disposição da população indígena? Se eles desenvolvem atividades produtivas e tem relações comerciais com pessoas físicas ou jurídicas "do lado de fora" por que não tributar essas atividades? Mesmo que a contribuição seja irrisória, já passa a mensagem que as benesses de nossa sociedade possuem um custo.
"(XVII) é vedada a ampliação da terra indígena já demarcada".
Uma rodada de aplausos, por favor. 
"(XVIII) os direitos dos índios relacionados às suas terras são imprescritíveis e estas são inalienáveis e indisponíveis (art. 231,§ 4º, CR/88)".
Discordo. Considere o caso em que a população de uma TI decline, por quaisquer que sejam os motivos - emigração, consanguinidade, doenças -, a níveis nos quais a relação pessoa/área seja evidentemente absurda. Ou mesmo que a população inteira decida se mudar para a cidade mais próxima. Por que essa terra deve ficar indisponível? 
"(XIX) é assegurada a participação dos entes federados no procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas, encravadas em seus territórios, observada a fase em que se encontrar o procedimento".
Se essa condicionante existisse uma década atrás, não ocorreriam absurdos como Raposa Serra do Sol. O Estado de Roraima perdeu boa parte de sua produção agrícola, inchou a pobreza na área urbana de Boa Vista, e o que ganhou em troca? Nada!
Art. 2º. Os procedimentos em curso que estejam em desacordo com as condicionantes indicadas no art. 1º serão revistos no prazo de cento e vinte dias, contado da data da publicação desta Portaria.
A FUNAI, em vez de começar a rever os processos que estão em desacordo (imagino que sejam muitos) preferiu usar seu tempo para emitir uma nota pedindo a revisão das condicionantes (aqui). 
Art. 3º. Os procedimentos finalizados serão revisados e adequados a presente Portaria.
Art. 4º. O procedimento relativo à condicionante XVII, no que se refere à vedação de ampliação de terra indígena mediante revisão de demarcação concluída, não se aplica aos casos de vício insanável ou de nulidade absoluta.
Art. 5°. O procedimento relativo à condicionante XIX é aquele fixado por portaria do Ministro de Estado da Justiça.
Art. 6º. Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação
LUIS INACIO LUCENA ADAMS
Por favor, agora façam um minuto de silêncio em homenagem ao falecido Ministro Mendes Direito, que propôs as primeiras 18 condicionantes que constam na portaria acima.

Quem ganha?
Note-se que há um bom tempo, porém em especial após a Constituição de 1988, os indígenas são tratados como cidadãos a parte do restante da população. É conhecimento comum que eles desfrutam de direitos que se aplicam de forma desigual entre indígenas e o resto da população. Muito disso se deve à paternalidade da FUNAI, que fornece comida, escolas, ambulatórios, casas, móveis, máquinas de lavar e até TV de plasma para os indígenas. E não falo isso pois "ouvi de alguém". Eu vi isso com meus olhos. Além disso, quando um indígena cometia ação que fora de qualquer TI seria criminosa (roubo, infanticídio), ele era inimputável. O cidadão brasileiro trata isso como "mamata". E estava cansado disso. 
A decisão do STF e essa portaria começam a trazer a população indígena ao mesmo patamar dos demais habitantes do país, aproximando-os da cidadania plena. Isso não quer dizer que os indígenas ainda compartilhem os mesmos deveres com o resto da população, mas já diminuíram os direitos que a esmagadora maioria da sociedade entendia como "mamatas". E em suma, uma sociedade em que todos compartilham os mesmos direitos e deveres é uma sociedade mais democrática. 

Quem perde?
Pode-se imaginar, especialmente pela reação de FUNAI, CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e RCA (Rede de Cooperação Alternativa), além de várias ONGs, que os índios sejam muito prejudicados com a portaria 303. O único pseudo-argumento que imagino poderia ser utilizado em defesa das mamatas existentes é que eles já configuravam uma espécie de "direito adquirido". 
Contudo, se prestarmos atenção veremos que aqueles que se pronunciam contra a portaria são os mesmos que exploram e dependem do índio tutelado, sem independência e vivendo em TIs como um sub-humano que precisa ser atendido, que não pode conseguir o que quer que seja por seus próprios meios. 
Eu sinceramente acredito que um índio é tão capaz quanto qualquer um de nós, sem necessidade de FUNAI, CIMI, RCA, ONGs ou qualquer outro. E se fosse índio, me esforçaria para provar que isso é verdade.

E agora?
O próximo passo é acabarmos com as cotas raciais e começarmos a tratar todos os cidadãos como aquilo que - por bem ou por mal - de fato somos: brasileiros.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Só mudaram de CEP

Cheguei tarde à notícia, mas hoje foi um dia peculiar para nós que gostamos de responsabilidade no trato com as questões ambientais. Não acho legal comemorar, mas hoje algumas peças do jogo de mentiras que se propagam sobre meio ambiente saíram (ainda que temporariamente) do tabuleiro.
O presidente do INCRA, Celso Lacerda, saiu (ou melhor, "foi saído") do cargo hoje. Infelizmente, ao que tudo indica (veja notícia), ele foi demitido, na minha opinião, pelos motivos errados. Se, como escreve a Folha, ele foi demitido pelos baixos números de assentamentos, acho que ele merecia uma medalha, não um ingresso no seguro-desemprego. Não falo isso pelos assentados em si, que são, pelos poucos que conheço, gente honesta e trabalhadora; mas porque o INCRA virou o ninho do MST, que suga dinheiro, manda e desmanda no órgão. Duvidam? Vejam no portal da transparência os convênios firmados pelo INCRA e calculem quanto disso cai no bolso dos bandidos do MST. O melhor jeito de um presidente do INCRA perder o cargo é desagradar o MST. E se foi por isso que ele caiu, repito, merece uma medalha.
Já o Valor Econômico informa (link):
O Greenpeace Brasil está em um processo de reestruturação interna. Nas últimas semanas, três ativistas do alto escalão foram realocados ou afastados do cargo. Paulo Adário, diretor da campanha Amazônia e talvez o rosto mais conhecido do Greenpeace no Brasil, deixa nos próximos meses sua base em Manaus para se tornar um líder global em florestas tropicais. Sérgio Leitão deixa a direção de campanhas e retorna à direção de políticas públicas, onde tradicionalmente atuou, e Kiko Britto deixa a direção de comunicação da ONG. De acordo com o Greenpeace, nenhum nome foi escolhido ainda para ocupar esses cargos.
Se Paulo Adário vai sair do Brasil, já é um ganho para o país. E a mudança da direção de campanhas,  bem como a direção de comunicação, lamento dizer, também demorou. As campanhas do Greenpeace estão tão maçantes e bobas que já estava quase  perdendo a graça responder no twitter às mensagens bobas que eles enviam. Além do fato que é meio ridículo uma ONGs estrangeira vir fazer campanha no Brasil contra a mudança do código florestal e contra o desmatamento quando nosso país está cheio de florestas e a Holanda, sede do Greenpeace, não possui nem 1% de mata nativa preservada. E olhem que nem falei do imbróglio Greenpeace x JBS. Sinceramente, que campanhas desastrosas!
Outro que perdeu o emprego hoje foi o repórter Cláudio Angelo, da Folha de São Paulo, como informa o Coturno Noturno. Pra quem é leitor desse blog e tem boa memória, vai lembrar que Cláudio Angelo é aquele repórter que chamei (nesse texto e nesse outro) de despachante do Greenpeace na Folha. 
Como não sei o que veio antes, se a vaga de diretor de comunicação do Greenpeace abriu antes da demissão do Cláudio Angelo ou o contrário; o que importa é que agora ele poderá cobrar todos aqueles favores que fez aos ongueiros holandeses enquanto esteve na Folha. Será uma vitória para ambos os lados: um terá um jornalista profissional cuidando da sua comunicação, enquanto o outro poderá parar de fingir ser repórter e se dedicar integralmente a seu ativismo. A não ser que ele só escreva de graça pro Greenpeace, claro.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Rio+20: É piada?

No começo do ano, escrevi uma postagem falando que se gastaria muito dinheiro com a Rio+20 (aqui), e adivinhem? Eu estava certo. Mesmo com todo o escândalo do aumento dos preços da hospedagem, aluguel de carros, restaurantes e outros serviços e produtos normalmente adquiridos pelos visitantes, vejam a notícia abaixo (do G1):
O turismo na cidade movimentou R$ 274 milhões durante os 10 dias da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. O número foi divulgado neste domingo (24) pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, que dois dias após o fim do evento, apresentou um balanço do legado que a conferência deixou para o município.

Segundo o secretário de Turismo, Pedro Guimarães, o Rio recebeu cerca de 110 mil turistas, um aumento de 50% em relação à previsão inicial. De acordo com as estatísticas da prefeitura, cerca de 45 mil pessoas estiveram no Riocentro, onde aconteceu o encontro dos chefes de Estado, e mais de 1 milhão de pessoas participaram dos eventos paralelos à Rio+20, principalmente da Cúpula dos Povos, que teve um público de 300 mil pessoas, e do Projeto Humanidade 2012, no Forte de Copacabana, ambos na Zona Sul da cidade.
Prós e contras
Vamos tentar ver os prós e contras da realização dessa conferência no Rio:
  • Caos no trânsito.
  • 3 dias de escolas e repartições públicas fechadas.
  • 144 toneladas de lixo.
  • Uma das semanas mais chatas do noticiário.
  • Aquela zona no Aterro do Flamengo.
  • Prejuízo líquido.
Se somente em verba federal para segurança foram gastos R$ 430 milhões e o turismo movimentou R$ 274 milhões, alguém pode me explicar por que alguém ainda acha uma boa idéia fazer uma conferência dessas no Rio?
Prometi que falaria os prós também. Infelizmente só encontrei um vídeo dizendo quais seriam os benefícios, que está abaixo:


Esse cidadão aí do vídeo é Sérgio Besserman Vianna, e ele foi um dos maiores entusiastas da Rio+20, sendo inclusive o, por assim dizer, "responsável" pela organização do evento pela prefeitura do Rio. Tentei transcrever seu discurso para elencar os benefícios, mas me perdi em todas as abstrações quase esotéricas que nunca imaginei que ouviria de um economista. Cadê os números? Cadê o lucro para a cidade? Até onde entendi, pois sou muito mais afeito a números que a sentimentos, o benefício é que o Rio venderia sua marca como uma cidade "sustentável", e que aumentaria nos cariocas o sentimento de uma cidade dinâmica, rumando a mais sustentabilidade. Não sei se é isso mesmo. Me pareceu o Gilberto Gil tentando explicar mecânica de fluidos.
Só depois me lembrei quem é o Sérgio Besserman. Ele é aquele cara que ficou conhecido como o "louco do IBGE" quando foi presidente do órgão (e fez um bom trabalho com o Censo 2000, admito), mas o mais importante é que ele é o irmão mais velho do falecido humorista Bussunda, do Casseta & Planeta.
Sérgio Besserman pode ser um bom economista. Eu duvido. Para mim, economista que não faz conta é como cozinheiro que não sabe o que é um fogão. Já como humorista, ainda que não tenha o talento do irmão, esse vídeo mostra que ele tem futuro. É só não se levar a sério.