quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A falácia do "genocídio indígena", ou: O racismo em pele de ovelha

Criou-se uma comoção nas redes sociais e até em alguns noticiários ditos sérios por conta de uma carta dos índios Guarani-Kaiowá, seguida de uma campanha pedindo assinaturas para algumas daquelas coisas que o  povo que vive pedindo assinatura inventa. 
O próprio texto pedindo as assinaturas já é um atestado daqueles casos em que as boas intenções não são acompanhadas de uma checagem dos dados disponíveis. Veja abaixo:
Leia, abaixo, carta de socorro da comunidade Guarani-Kaiowá. Os índios da etnia Guarani-Kaiowá estão correndo sério risco de GENOCÍDIO, com total omissão da mídia local e nacional e permissão do governo. Se você tem consciência de que este sangue não pode ser derramado, assine esta petição. Exija conosco cobertura da mídia sobre o caso e ação urgente do governo DILMA e do governador ANDRÉ PUCCINELLI, para que impeçam tais matanças e junto com elas a extinção desse povo.
Após esse texto introdutório, vem a carta dos índios Guarani-Kaiowá, que pode ser lida no mesmo link. 

O "genocídio indígena"
Bom, como fiquei interessado nessa questão do "genocídio indígena", fui atrás dos dados no IBGE. Lá no SIDRA achei a seguinte tabela (link):

Brasil - População residente, por cor ou raça
Cor ou raça
População residente (Pessoas)
População residente (Percentual)
1991
2000
2010
1991
2000
2010
Total
146815815
169872856
190755799
100,00
100,00
100,00
Branca
75704922
91298042
90621281
51,56
53,74
47,51
Preta
7335130
10554336
14351162
5,00
6,21
7,52
Amarela
630658
761583
2105353
0,43
0,45
1,10
Parda
62316085
65318092
82820452
42,45
38,45
43,42
Indígena
294148
734127
821501
0,20
0,43
0,43
Sem declaração
534872
1206675
36051
0,36
0,71
0,02
Fonte: IBGE - Censo Demográfico


Notem pelo dado do IBGE que a população indígena vem crescendo nos últimos três censos demográficos. Em 1991 eram 294 mil, em 2000 os indígenas eram 734 mil, e em 2010, 821 mil. Só para contextualizar, o genocídio mais famoso da história, o dos judeus durante a segunda guerra, matou 6 milhões em menos de uma década. 
Vendo os dados, me parece que os indígenas estão sendo "assassinados" como coelhos. 

Os maiores inimigos dos índios no Brasil

Obviamente as pessoas que considero os maiores inimigos dos indígenas no Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), já entrou na onda, e divulgou no twitter um de seus relatórios (aqui), onde eles apresentam os números de assassinatos de indígenas no Brasil:


O relatório não para por aí, e mostra o número de suicídios, que está reproduzido abaixo:

Notem que eles mostram números absolutos, e que a fonte de dados que o relatório do CIMI utiliza é... outro relatório do CIMI! Como eu não confio no CIMI, e sou um pouquinho mais rigoroso nas minhas pesquisas, fui atrás de dados de fontes um pouco mais, digamos, fidedignas. Então entrei no DATASUS e fui pesquisar os dados de mortalidade do Brasil. 

Assassinatos no Brasil
Abaixo seguem os dados de assassinatos no Brasil por cor e raça, tal como disponíveis no DATASUS (link aqui):

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X85-Y09 Agressões
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
17834
3845
259
19673
102
3647
45360
2001
18689
4057
111
21347
69
3670
47943
2002
18867
4099
103
22853
75
3698
49695
2003
18846
4657
178
23674
78
3610
51043
2004
17142
4153
139
23549
71
3320
48374
2005
15710
3806
81
24648
93
3240
47578
2006
15753
3949
91
25976
125
3251
49145
2007
14308
3921
45
26272
144
3017
47707
2008
14650
3881
74
28468
153
2887
50113
2009
14851
3875
60
29658
135
2855
51434
2010
14047
4071
62
30912
111
3057
52260
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Notem que os dados oficiais, disponíveis no DATASUS, mostram que o número de óbitos de indígenas por assassinato é maior que aqueles reportados pelo CIMI. E descobri isso sem sair de casa, somente com minha conexão de banda larga. E ainda fiz uma tabela maior, de 2000 a 2010. Como os dados absolutos significam pouco por si sós, fiz uma outra tabela com o percentual dos óbitos por cor ou raça, que segue abaixo:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Percentual de Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X85-Y09 Agressões
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
39.32%
8.48%
0.57%
43.37%
0.22%
8.04%
100.00%
2001
38.98%
8.46%
0.23%
44.53%
0.14%
7.65%
100.00%
2002
37.97%
8.25%
0.21%
45.99%
0.15%
7.44%
100.00%
2003
36.92%
9.12%
0.35%
46.38%
0.15%
7.07%
100.00%
2004
35.44%
8.59%
0.29%
48.68%
0.15%
6.86%
100.00%
2005
33.02%
8.00%
0.17%
51.81%
0.20%
6.81%
100.00%
2006
32.05%
8.04%
0.19%
52.86%
0.25%
6.62%
100.00%
2007
29.99%
8.22%
0.09%
55.07%
0.30%
6.32%
100.00%
2008
29.23%
7.74%
0.15%
56.81%
0.31%
5.76%
100.00%
2009
28.87%
7.53%
0.12%
57.66%
0.26%
5.55%
100.00%
2010
26.88%
7.79%
0.12%
59.15%
0.21%
5.85%
100.00%
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Notem que não há grande oscilação dos números no que se refere ao "genocídio indígena". Ora, não há, em 10 anos, nenhum tendência clara de crescimento de homicídios cometidos contra indígenas. Diga-se de passagem, o único grupo de cor/raça que apresenta uma tendência clara de crescimento de homicídios é o dos pardos. Até onde vi, não há nenhum abaixo assinado contra o "genocídio dos pardos". 

Os suicídios
Por sorte, ou só por saber onde pesquisar (aprendam jornalistas),  encontrei também os dados de suicídios no Brasil, por cor/raça. A tabela com os dados absolutos segue abaixo:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
4034
361
43
1726
50
566
6780
2001
4562
404
43
2136
46
547
7738
2002
4475
393
36
2192
64
566
7726
2003
4447
439
41
2359
66
509
7861
2004
4524
407
35
2457
68
526
8017
2005
4661
456
39
2785
80
529
8550
2006
4695
488
35
2872
82
467
8639
2007
4614
438
46
3304
75
391
8868
2008
4848
495
39
3416
100
430
9328
2009
4935
502
34
3417
95
391
9374
2010
4843
514
37
3528
93
433
9448
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
Em comparação com os dados do DATASUS, nota-se que o CIMI novamente subestimou os dados de suicídios. Comparando os suicídios dos indígenas com os de outros grupos, temos a seguinte tabela:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
59.50%
5.32%
0.63%
25.46%
0.74%
8.35%
100.00%
2001
58.96%
5.22%
0.56%
27.60%
0.59%
7.07%
100.00%
2002
57.92%
5.09%
0.47%
28.37%
0.83%
7.33%
100.00%
2003
56.57%
5.58%
0.52%
30.01%
0.84%
6.48%
100.00%
2004
56.43%
5.08%
0.44%
30.65%
0.85%
6.56%
100.00%
2005
54.51%
5.33%
0.46%
32.57%
0.94%
6.19%
100.00%
2006
54.35%
5.65%
0.41%
33.24%
0.95%
5.41%
100.00%
2007
52.03%
4.94%
0.52%
37.26%
0.85%
4.41%
100.00%
2008
51.97%
5.31%
0.42%
36.62%
1.07%
4.61%
100.00%
2009
52.65%
5.36%
0.36%
36.45%
1.01%
4.17%
100.00%
2010
51.26%
5.44%
0.39%
37.34%
0.98%
4.58%
100.00%
 Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
Novamente, nenhuma tendência clara de aumento entre os indígenas. Já os pardos, coitadinhos...

E isso é muito ou pouco?
Notem que, a exemplo do CIMI, eu só apresentei os dados, sem contextualizá-los. Como quero continuar a ter o privilégio de falar mal deles, vou explicar direitinho como se analisa se os homicídios e suicídios dos indígenas são muitos ou poucos. Compará-los entre si mostra, como nas tabelas acima, o percentual das vítimas de homicídio e de suicídio por grupo, o que é interessante, para, por exemplo mostrar que a proporção de vítimas de homicídio pardas está crescendo, como fiz acima.
Para verificar se um determinado grupo ou etnia está sendo mais ou menos atingido, como grupo, por determinada ação (assassinatos e suicídios, no nosso caso) é necessário ver se os membros desse grupo possuem uma participação total na sociedade maior ou menor que sua participação no rol de vítimas dessas ações. É mais simples que parece. Darei um exemplo que até o pessoal do CIMI conseguirá entender: se uma cidade é composta por 70% mulheres e 30% de homens, é de se esperar que a distribuição dos mortos em um determinado período (sem guerras e outros fatores do tipo) seja de 70% mulheres e 30% de homens. Ou seja, as pessoas morrem na mesma distribuição em que elas se encontram na amostra. Isso é uma distribuição ideal. Porém, se com a mesma população, de 70% de mulheres e 30% de homens, os mortos se distribuírem em 85% mulheres e 15% homens, há aí um indicador que mais mulheres estão morrendo, e daí se investigam as causas. Não é tão complicado. Até antropólogos entendem.
Portanto, para sabermos se os índios são mortos ou se matam mais que outros grupos de cor/raça, precisamos saber como é a distribuição de cor/raça entre a totalidade da população. Por isso coloquei aquela tabela lá em cima, onde estão apresentados a população em indivíduos e em percentual. Compondo essa tabela com os dados do DATASUS, cheguei ao seguinte resultado:

Brasil - Distribuição da população, suicídios e assassinatos por cor/raça - 2000 e 2010
Cor/Raça
2000
2010
População
Suicídios
Assassinatos
População
Suicídios
Assassinatos
Branca
53.74%
59.50%
39.32%
47.51%
51.26%
26.88%
Preta
6.21%
5.32%
8.48%
7.52%
5.44%
7.79%
Amarela
0.45%
0.63%
0.57%
1.10%
0.39%
0.12%
Parda
38.45%
25.46%
43.37%
43.42%
37.34%
59.15%
Indígena
0.43%
0.74%
0.22%
0.43%
0.98%
0.21%
Sem declaração
0.71%
8.35%
8.04%
0.02%
4.58%
5.85%
Total
100.00%
100.00%
100.00%
100.00%
100.00%
100.00%

Pela análise dos dados, nota-se que os brancos, historicamente, tem uma participação maior no total de suicídios que seu percentual na população. O mesmo acontece com os índios. De fato, o percentual de suicidas indígenas é, em 2000, quase o dobro do percentual de indígenas no país, enquanto em 2010, o percentual de indígenas na população permaneceu inalterado, porém o percentual de suicidas indígenas é mais que o dobro do percentual de cidadãos que se declaram índios. Nisso, as alegações estão certas, os indígenas de fato tomam mais suas próprias vidas que outros grupos de cor/raça.
Já nos assassinatos, o que ocorre é justamente o contrário. Enquanto os pardos (sempre eles, coitados) possuem uma participação maior entre as vítimas de assassinato que sua participação na sociedade, o percentual de vítimas indígenas de assassinato  é menos da metade de sua população. Mais seguro que isso, só se você for oriental. 

Há motivo para alarde?
Eu apenas arranhei aqui a superfície do problema. O que fiz foi só brincar com estatística descritiva e mostrar que não é tão difícil. A dificuldade está em determinar qual a causa que leva os indígenas a apesentar uma maior incidência de suicídio e uma menor incidência de homicídio, em relação a sua distribuição na sociedade. Os grupos que defendem o índio tutelado, dependente, dizem que é porque eles estão sendo expulsos de suas terras, apesar dessa população de menos de 0,5% do país usufruir de mais de 13% da área. Contudo, essa é uma hipótese que não pode ser ignorada. Eu tenho outras, igualmente válidas sem um estudo mais aprofundado, que nem eu nem os manés que assinam essas porcarias que aparecem na net fizeram.

Minhas hipóteses:
  1. Insatisfação com o governo Lula;
  2. Aumento do preço da cachaça;
  3. "Banda larga" 3G que não funciona;
  4. Desilusão amorosa;
  5. Morte da cabrita; e minha preferida:
  6. Aquecimento global.
Repito, enquanto não forem feitos estudos mais aprofundados que identifiquem de fato as causas, é puro proselitismo afirmar que uma etnia de menos de 0,5% da população se suicida porque não está contente com os 13% do território que lhes foram outorgados pelo Estado.
O que dá pra afirmar é que não há evidências de um genocídio. Ou será o primeiro genocídio auto infligido da história. 


Então, porque toda essa falação? 
Os índios Guarani-Kaiowá publicaram uma carta na qual contestam uma decisão da Justiça Federal do MS. Nela, em algo parecido com o português (viu como o CIMI não serve pra nada? Nem ensinaram português para eles) falam em morte coletiva. Isso pode dizer que estão dispostos a morrer juntos, lutando, ou como os alarmistas querem que você acredite, que estão dispostos a cometer suicídio coletivo. Foi o que bastou para todos os grupos de desocupados do Oiapoque até o outro lado do arco-íris se apropriasse da causa dos coitadinhos dos Guarani-Kaiowá. Alguns malucos até afirmaram que "Se você come carne, está patrocinando isso" (é verdade! vejam nesse link). Não sei se é falta de proteína animal ou se eles andam fazendo mais coisas com seu verde além de comer. O único pingo de sensatez que vi até agora veio da BBC Brasil, que publicou uma reportagem (aqui) com o título: "Carta sobre 'morte coletiva' de índios gera comoção e incerteza", na qual lê-se:
A carta dos indígenas Guarani-Kaiowá, anunciando o que foi interpretado por muitos como uma ameaça de suicídio em massa, vem gerando comoção, mas também incerteza sobre o real significado do documento assinado por líderes da tribo. 
A carta, que teve ampla repercussão nas redes sociais e em portais de notícia do Brasil e do exterior, foi interpretada como um anúncio de suicídio coletivo por parte dos Pyelito Kue, comunidade de 170 indígenas que expôs seu desespero após receber uma ordem de despejo da terra onde vive acampada. Na carta, os indígenas afirmavam que dali não sairiam vivos. 
O documento fala em "morte coletiva" e afirma que, se insistir no despejo, o Estado estará decretando a morte dos indígenas, exprimindo profunda desesperança no governo e na Justiça Federal.
Parabéns para a repórter Júlia Dias Carneiro, que, apesar de só utilizar os dados do CIMI, ao menos teve a coerência de admitir que não há certeza sobre a ameaça de suicídio coletivo que tanto se falou nos últimos dias em todo canto da internet e nos periódicos menos sérios. Afinal, basta ver os dois primeiros parágrafos da carta:
Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.
Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Gente, entendam o seguinte: os índios estão contestando uma decisão da justiça. Eles podem fazê-lo, desde que haja uma instância superior ao qual eles possam recorrer. Nesse caso, ainda há instâncias superiores. Ou seja, se eles querem contestar essa decisão -- e tem tanto direito quanto qualquer um de fazê-lo -- podem fazer assim que arrumarem um advogado. Simples assim. Agora se matarem? Duvido. 

A ilusão que isso é um fato isolado
O que mais me espanta é a ingenuidade com que esse evento tem sido tratado. Da forma como essa situação é descrita nas campanhas, posts e na imprensa não-tão-séria, parece que essa lenga-lenga dos índios se matarem (quem quer se matar se mata, não fica fazendo discurso) não tem nenhuma conexão com o cenário político nacional. E tem.
Neste ano foi publicada pela Advocacia Geral da União a Portaria 303/2012 (veja mais sobre ela aqui), que, atendendo decisão do STF, determina, entre outras coisas, que Terras Indígenas não podem ser ampliadas, que os Estados devem ser consultados, que as forças armadas podem sim entrar em Terras Indígenas e por aí vai. Em suma, devolveu ao país aquele pedaço (13% é um baita pedaço) do território. Sem tirar um índio de suas casas. Outro fato importante é a tramitação da PEC 215/2000 (veja mais aqui), que determina a demarcação de Terras Indígenas é prerrogativa do Congresso, e não do Executivo. Assim, evitam-se absurdos como Raposa Serra do Sol. Obviamente isso desagradou "os ambientalistas e indigenistas de miolo-mole [que] querem poder decidir quem é desapropriado na sala do cafezinho da FUNAI", como escrevi na ocasião em que tratei do assunto. 
Depois de todas as campanhas contra a Portaria AGU 303/2012 e a PEC 215/2000 mostrarem-se infrutíferas, era necessário algo de mais impacto. Como não há nenhuma usina hidrelétrica planejada para a região (vide Belo Monte) e ninguém ateou fogo em ninguém, inventar um suicídio coletivo é, no mínimo, bem conveniente dado o contexto atual. Infelizmente nenhum veículo de comunicação lembrou de falar disso.

E se não fossem índigenas?
Para atestar a falta de validade dessa campanha, boba como tantas outras, basta notar que quando se fala de índios, parece que boa parte da população brasileira, arraigada de um sentimentalismo misturado com racismo, pensa neles como coitados, incapazes e que precisam ser protegidos. Ora, há provas e mais provas que os índios são hoje tratados pela maioria da população como sub-humanos, inimputáveis, no mesmo nível dos loucos e dos infantes: vide o caso de agressão ao funcionário da Eletrobrás ou o sequestro dos trabalhadores da Norte Energia (aqui e aqui). Isso é discriminação. 
Minha opinião nesse sentido é clara: índios são tão capazes quanto qualquer outro ser humano. Quem deseja que a população se sinta culpada por qualquer coisa que acontece com eles são exatamente aquela corja que precisa do índio incapaz e tutelado como meio de sobrevivência. O que para muitos de nós, como eu, é um dilema moral   (como melhorar a vida dessa população?) para eles é algo mais premente, do tipo: "como manter meu ganha-pão?". 
Agora pensem consigo mesmos, especialmente aqueles que se sentiram tocados pela campanha ou que andam reproduzindo essas bobagens por aí:
Se os arrozeiros de Raposa Serra do Sol (a maioria pardos, coitados) tivessem ameaçado se suicidar quando foram expulsos de suas terras para a criação de uma Terra Indígena, você se sentiria tão culpado? Teria apoiado uma campanha pedindo por ação urgente do Estado? Teria assinado por maior cobertura da mídia ao que era uma injustiça?
Se você respondeu "não", você é um racista. 

9 comentários:

  1. Davi,

    é interessante ver tb a opnião da FUNAI:
    http://www.funai.gov.br/.
    A problemática de marcação de terras já é conhecida a tempos, porém, se a justiça deu parecer ao proprietário da terra, ela deve ter um punhado de argumentos. Até porque o Índio tem maiores benefícios legislativos do que um mero produtor de gado.

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    1. Eduardo, o posicionamento da FUNAI só corrobora a observação que fiz sobre a "conveniência" dessa carta dos índios. Note que a FUNAI escreve:
      "Na ocasião, ficaram acordados novos prazos para entrega e aprovação dos relatórios de identificação e delimitação feitos pelos antropólogos responsáveis. Esse acordo foi pactuado pelos antropólogos coordenadores dos Grupos Técnicos, junto com a Funai, perante os indígenas."
      Ora, se eles estão ameaçando se matar ou resistir até a morte (a farsa do suicídio coletivo já começou a ser desmascarada na imprensa), o que eles estão fazendo é querer forçar uma situação por meio de ação política, utilizando um punhado de idiotas úteis como massa de manobra.
      Concordo com sua análise da atuação da justiça, e repito: se eles discordam da decisão, podem utilizar os meios legais a disposição de qualquer cidadão para contestar a decisão.

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  2. O povo brasileiro, em geral, adora um bom drama, nada comove mais as pessoas do que uma minoria supostamente sendo oprimida. As redes sociais atualmente servem para alimentar essas pessoas com notícias e informações, nem sempre corretas, das quais o povo adora ficar indignado, postar, compartilhar e comentar. Antes era a TV quem ditava as regras na vida dessas pessoas, hoje é a internet. Na internet todos adoram ser altruístas, comprometidos com a sociedade, intelectuais e claro, demonstrar toda sua indignação contra tudo que lhes parece errado. Campanhas enormes, milhões de compartilhamentos e comentários, toda a fúria é libertada, no conforto da sua sala de estar, quarto ou escritório. E assim o "cidadão" faz a sua parte para mudar o mundo, sem ao menos dar-se ao trabalho de pesquisar alguma coisa sobre a "indignação" da vez, afinal, se a internet diz, deve ser verdade.

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    1. Esse bom-mocismo é ridículo. Pessoas apoiam qualquer porcaria.
      Esse artigo mostra, de forma bem mais didática que eu, boa parte do problema:
      http://canaldoprodutor.com.br/comunicacao/artigos/indios-simplista-visao-do-bem-contra-o-mal
      Já esse explica um pouco mais da história do conflito ali no sul de MS:
      http://www.pettersonvale.blogspot.fr/2012/10/guarani-kaiowa.html
      Eu não tenho nada contra o pessoal ser altruísta (apesar de achar uma bobagem), porém apoiar campanhas contra causas inexistentes, como "genocídio indígena" é a celebração da ignorância como categoria de pensamento.

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  3. O que me faz pensar em suicídio (já que tenho sangue indígena) é ver o tamanho da ignorância - tanto em extensão como em profundidade - das pessoas que habitam esta parte do mundo chamada Brasil ! O pior de tudo é que a maioria destes cidadão engajados não são uns zés-ninguém, mas "doutores" graduados - as vezes até pós-graduados - em cursos superiores. Ou seja, a nossa "elite" intelectual rasteja num nível cognitivo que chega a ser indecente ! Acho que se o advento da máquina do tempo fosse real e permitisse transportar para os dias atuais crianças de quarta ou quinta série de décadas passadas, certamente estas debateriam de igual para igual com certos portadores de diplomas universitários de hoje ! A decadência é tanta que penso em me matar para - se os espíritas estiverem certos - renascer em alguma época em que o nível intelectual seja superior ao atuais. Bom, talvez eu reaparece na Idade Média ou mesmo no tempo dos faraós !!

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  4. Normalmente concordo com o autor deste blog, e especificamente sobre o assunto dos Kaiowas não tenho opinião formada. Mas dados de toda população indígena nacional não vão refletir corretamente a situação de um grupo especifico, seja ela boa ou ruim

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    1. Concordo com você Igor. Os dados da totalidade da população não necessariamente refletem a situação de uma amostra.
      Por isso sou tão categórico em afirmar que não há evidências de "genocídio indígena".

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Fada, você bebeu ou usou alguma substância de uso controlado antes de escrever seu comentário?
      Você estava tentando ser sarcástica? Não desista, quem sabe quando o efeito passar você consegue.
      Vai abaixo um pequeno guia para ser sarcástico sem que seu texto perca o sentido:
      1) Escreva o que você pensa, usando uma língua que domine (já notei que português não é seu forte);
      2) Veja se faz sentido, se os argumentos (é desejável ter algum) estão claros e lógicos, se a estrutura do texto está boa;
      3) Caso positivo, procure substituir alguns pontos do textos por outras formas de expressar a mesma coisa.
      4) Verifique se faz sentido, se mantém os requisitos do item 2 acima.
      5) Caso positivo, envie.
      6) Caso não faça sentido, volte ao item 1. Repita até acertar.
      Opcional, mas não obrigatório, é ler. A leitura nos mostra formas de melhorar nosso estilo, estrutura e até mesmo a ortografia. Muita gente não lê, e aí acaba postando um monte de baboseiras sem sentido.

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