segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Agradeça a esquerda

Fala-se muito mal dos parlamentares no Brasil. Com razão. Segundo reportagem do portal R7, o Congresso Nacional custou 6 bilhões de reais em 2011. Isso significa R$ 684.931,51 por hora. E isso contando as 8.760 horas do ano, não aquelas 150 horas em que os parlamentares trabalham (estou sendo bonzinho).
Essa semana descobri que há uma página no site da Câmara em que há enquetes para que os visitantes dêem sua opinião sobre a pauta da Câmara. Apesar das perguntas ali expostas se referirem a uma reduzidíssima parcela do putilhão de projetos de lei que tramitam na casa, imagino que se tratem daquelas em que teoricamente a população teria mais interesse. O site, para quem quiser visitá-lo, está nesse link.

É só porcaria
Vejamos abaixo alguns dos projetos de lei que a agência de notícias da Câmara achou que seriam de maior interesse do público (os projetos vão em vermelho, meus comentários em preto): 
  • Incentivo ao uso de bicicletas (PL 6474/09): cria o Programa Bicicleta Brasil, exigindo que todas as cidades com mais de 20 mil habitantes tenham ciclovias e bicicletários.
É ridículo ter que falar isso, mas cada cidade que resolva seus problemas da forma que achar melhor. O deputado Jaime Martins (PR-MG), proponente dessa bobagem, acha que como toda cidade de mais de 20mil pessoas é igual, todas tem os mesmos problemas, para os quais, obviamente, ele tem a solução: criar ciclovias e bicicletários. Esse mané deve ter viajado para a Europa (provavelmente com o nosso dinheiro), visto umas ciclovias e bicicletários e pensado: "pô, que legal, vou obrigar todo mundo lá na Banânia a fazer o mesmo". Já de onde saiu o número mágico de 20 mil pessoas não sei. Mas pelo que vi nos dados do último Censo, isso significa que "somente" 1.651 municípios brasileiros terão que se adequar. Com o nosso dinheiro. 
  • Proteção de participantes de reality shows (PL 2812/11): proíbe as emissoras de rádio e televisão, inclusive as TVs por assinatura, de exibir situações humilhantes e degradantes em reality shows?
O deputado Edson Pimenta (PSD-BA), que provavelmente nas próximas eleições concorrerá "em defesa das periguetes, sub-celebridades, e aspirantes a sub-celebridades" quer proteger aquela parcela da população que se submete a sua própria ridicularização em rede nacional. Ora, se for para impedir que pessoas ignorantes, iletradas e sem nada na cabeça sejam humilhadas em cadeia nacional de rádio e televisão, as primeiras coisas a proibir seriam a TV Câmara e a TV Senado. 
O maior reality show da TV brasileira são a TV Câmara e a TV Senado. E convenhamos, nela também há um monte de imbecis que se humilham e degradam em cadeia nacional. Mas não é tão divertido quanto os outros reality shows, pois nesse somos lembrados que todos nós pagamos diretamente por uma programação de terceira categoria.  
  • Criminalizar flanelinhas (PL 2701/11): criminaliza a ação de flanelinhas e guardadores de carro?
Eu também detesto flanelinhas. Porém, se as polícias não conseguem prevenir furtos de veículos nem capturar os criminosos, como o deputado Fabio Trad ( PMDB-MS) sugere que elas prendam todos os flanelinhas? Coisa típica de quem ouviu o motorista (que nós pagamos, claro) reclamar dos flanelinhas e pensou "farei algo a respeito". 
Ora, se um flanelinha toma alguma ação ilegal, como ameaçar ou agredir o condutor, ou mesmo danificar o veículo, qual dessas ações não está prevista no Código Penal? Acho que o deputado não lê as bobagens que o estagiário do gabinete escreve, daí acaba apresentando uma coisa dessas.
  • Direito de greve para os servidores públicos (PL 4497/2001)?
É uma opinião controversa, mas eu defendo o direito de quem não está satisfeito procurar outro emprego. Já expus essas opiniões em outro texto. Regulamentar a greve de servidores públicos é legitimar e piorar a bandalheira já existente. Repito: não está satisfeito com seu emprego? Arrume outro. Ou então admita que você é incompetente demais para disputar uma vaga na iniciativa privada e se conforme em ser um barnabé privilegiado com estabilidade pelo resto da vida (que problema, né?).
Servidor público em greve? Greve, por exemplo, dos servidores do Ministério do Trabalho em busca de melhores condições? Isso é tão ridículo que nem vou me estender sobre o assunto.
  • Sacolas plásticas (PL 612/07): obriga supermercados a substituir sacolas plásticas convencionais por sacolas biodegradáveis?
Ai que preguiça. Já falei tanto disso (aqui e aqui) que estou meio saturado do assunto. Fui ler as justificativas para o projeto do deputado Flávio Bezerra (PMDB-CE), que tem como objetivo, segundo texto por ele apresentado: "substituir as sacolas de plástico convencional por sacolas de plástico oxi-biodegradáveis, uma vez que as sacolas convencionais não são recicláveis, e, portanto são considerados os maiores poluidores de nosso meio ambiente." Aprendi que as sacolas plásticas convencionais são "os maiores poluidores do nosso meio ambiente" (o erro de concordância é do original). Fico feliz em saber disso.
Então se acabarmos com as sacolas "convencionais", o deputado promete que tanto ele quanto seus colegas parlamentares, ongueiros, ecochatos (múltipla escolha) param de encher nosso saco com desmatamento, agrotóxicos, transgênicos, Belo Monte, e essa palhaçada toda? Se ele prometer isso, eu paro de usar sacolas plásticas "convencionais". 
  • Lei do Salto Alto (PL 1885/11): proíbe a venda de sapatos femininos com salto alto para crianças?
Dizem que o Brasil é o país da piada pronta, e esse é um caso claro. Eu juro que não inventei isso só pra adicionar comicidade ao texto. Vejam na página da Câmara. 
O deputado Décio Lima (PT-SC), muito preocupado em "zelar pela proteção à saúde e à segurança de nossas meninas", propõe (é sério, juro, o texto está nesse link) proibir a venda de sapatos com salto alto para infantes.
O que o deputado esquece é que essas crianças, que suponho não sejam crias do meretrício  (a exemplo de muitos dos pares do deputado), possuem pais. Então, deputado, confie nos pais e deixe que eles decidam o que é melhor para suas crianças. Nem todos são tão irresponsáveis quanto seu eleitorado.


O que vemos nos projetos de lei acima é só porcaria. Os porcos nos dão lombinho, costelinhas e bacon. Também nos presenteiam com bastante matéria fecal. Já os deputados dessas propostas ficam só na matéria fecal.

Falta senso de ridículo
Qual o ponto comum entre todas as propostas acima? O fato que todas as propostas possuem um viés esquerdista. Todas querem que o Estado faça "mais", quando ele sequer faz o mínimo. Que por sinal, era só o que deveria fazer.
Pelo que vai nas propostas acima, parece que os parlamentares, quanto mais fazem, mais pioram as coisas. Enquanto os parlamentares discutem o salto alto para crianças e a instalação de ciclovias, não se fala em reforma tributária. Reforma política então, nem de longe. Afinal, pra que mudar um sistema que permite que os parlamentares gastem nosso dinheiro com propostas idiotas como as acima e saiam ilesos?
Minha sugestão era que cada cidadão deveria ter como hobby ridicularizar um parlamentar por mês. Já seria suficiente para eles pararem com essas porcarias.

Falta direita no país
Como já está claro em um dos textos mais lidos do blog:
A esquerda prega o "bem comum" através da centralização do poder nas mãos de um Estado gigantesco, onipresente e controlador, a direita acredita no poder de realização e liberdade individuais, que cada pessoa tenha liberdade para seguir seus próprios interesses.

A esquerda prega o controle ferrenho do mercado em nome do "bem comum", a direita acredita que cada um sabe o que é melhor para si e é capaz de gerir seus recursos em prol de si próprio e sua família.

A esquerda prega que "intelectuais" esclarecidos, benevolentes e bem intencionados sabem o que é melhor para a sociedade inteira, a direita acredita que cada indivíduo é capaz de cuidar de sua própria vida.

A esquerda prega que a moralidade do Estado deve substituir e sobrepor-se a quaisquer valores da sociedade, a direita acredita que os valores judeo-cristãos serviram à sociedade ocidental muito bem até agora.
No Brasil esquerdista, sem qualquer oposição ideológica significativa, o que vemos é isso aí. Propostas inúteis, absurdas, que não somente diminuem a estatura moral do Congresso, mas diminuem a moral e o bem estar de qualquer um que esteja consciente que paga caro por isso. E sem dúvida, cada uma dessas propostas irá precisar de mais dinheiro para o Estado. Dinheiro seu, que concordando ou não com esse texto ou com as propostas acima, vai pagar por essa coisa toda.
As pessoas podem não saber em quem votar -- a julgar pelo fato que os nem-tão-ilustres acima foram eleitos -- mas sabem de uma coisa: elas querem seu dinheiro, o fruto de seu trabalho, em seus bolsos -- não na conta do governo. Afinal, ninguém sabe melhor do que eu preciso que eu mesmo. E ninguém sabe melhor do que você precisa que você mesmo. Infelizmente, até onde sei não temos um parlamentar sequer que defenda reduzir o Estado e dar mais liberdade de decisão para o indivíduo. Liberdade para colher os frutos do seu sucesso, e ter de arcar com as consequências de seu fracasso, se for o caso. Países sérios são assim. Já nas repúblicas bananeiras, como o Brasil, trata-se o cidadão como um incapaz, que precisa viver sob a tutela do Estado. 
Nesse conto de fadas às avessas que é o Brasil, sustentamos o lobo mau, entregamos o fruto de nosso trabalho a ele, e somos gratos quando ficamos com as migalhas. Agradeça a esquerda. 

Um comentário:

  1. Sem falar em tantos outros projetos sem pé nem cabeça que são apresentados todos os dias e alguns até são votados e aceitos.
    Fiquei admirado com o projeto das bicicletas. Já imagino isso em SC, por exemplo? Queria ver uma ciclovia em Videira ou cidades com relevo semelhante.

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