sábado, 15 de fevereiro de 2014

Ivanpah, a usina "feel-good"

Há toda uma comoção na internet por conta da usina termosolar Ivanpah. Um monte de gente está saudando a usina como a panacéia que resolverá toda a demanda de energia do planeta. Quanto disso é verdade, mentira, ou meias-verdades?
Vamos começar pelo básico: os dados de Ivanpah. A usina tem Potência Instalada de 392MW, Energia Média de 123,31 MW, o que resulta em um fator de capacidade de 0,31. O custo total de implantação foi de 2,2 bilhões de dólares, dos quais 1,6 bilhão em empréstimos governamentais. A usina ocupa uma área de 14,16 km² (3500 acres ou 1416 hectares). 

Vista de uma das 3 torres de Ivanpah. Fonte: http://ivanpahsolar.com/

Custo
No Brasil, usinas hidrelétricas custam em torno de U$ 2.600,00 a U$ 3.400,00 por kW de Potência Instalada, segundo minha própria experiência e de colegas do setor. Comparando com Ivanpah, que tem um custo de U$ 5.612,24 por kW de Potência Instalada, o custo dessa usina é claramente mais alto que a média brasileira. Não preciso lembrar que quanto maior o custo de instalação de uma usina, maior será o custo da energia gerada.
A U.S. Energy Information Administration tem um estudo onde compara o custo do MWh de vários tipos de usina. As mais baratas são termoelétricas a gás natural, seguidos de eólica, geotermal e hidroelétricas. A mais cara? Termosolar, como Ivanpah.

Inovação
Fala-se muito sobre o caráter inovador da usina Ivanpah. Contudo, a tecnologia de Concentrated Solar Power (CSP) está por aí desde 1984, quando entrou em operação a primeira usina desse tipo. Uma das páginas mais interessantes sobre o assunto é a CSP World, onde há vários dados sobre o assunto, incluindo um mapa com a localização das usinas desse tipo no mundo. São tantas que nem tentei contá-las.

Geração de energia
Hoje em dia meio mundo é especialista em energia, então as pessoas gostam muito de dar pitaco no setor elétrico sem saber absolutamente nada sobre ele (o caso mais conhecido é uma tal Dilma Rousseff). Quando aqueles atores resolveram falar de Belo Monte (comentei o caso aqui) uma das críticas foi o Fator de Capacidade (quociente entre Energia Média e Potência Instalada) da usina, que no caso de Belo Monte é de 0,41. Muitas das pessoas que apoiaram os atores hoje também exaltam Ivanpah, que tem um Fator de Capacidade de 0,31. Notem que não estou sendo malvado comparando Ivanpah e Belo Monte. Uma é a maior termosolar do mundo, enquanto a outra é a maior hidrelétrica em construção no mundo. 
Usinas termoelétricas, por sua vez, gerariam a mesma energia, com um custo ainda menor, e um fator de capacidade (quociente entre Energia Média e Potência Instalada) muito maior que a termosolar (Ivanpah) e as hidrelétricas. Mas comparar com térmicas a gás, carvão, biomassa ou nucleares é covardia, então nem me estenderei nessa comparação.

Impacto ambiental
Um dos pontos que os entusiastas de Ivanpah citam são os reduzidos impactos ambientais. O trunfo seria a reduzida área ocupada pela usina, de 14,16km². Isso resulta que a usina tem uma relação entre Potência Instalada/km² de 27,68MW/km², ou uma relação de 8,71MW/km² para a Energia Média. De fato, essa é uma área bastante reduzida, inclusive comparando-se com Belo Monte, que possui um reservatório de 516km² (leia o RIMA aqui), o que resulta nas relações de 21,77MW/km² para a Potência Instalada e 8,85MW/km² para a Energia Média. Corrigindo as proporções de Belo Monte para a área de 288km² que serão efetivamente alagados pela usina (228 km² da área do reservatório são no leito atual do rio Xingú), temos uma relação de 39MW/km² de Potência Instalada e 15,87MW/km² de Energia Média. 
Nesse ponto, Ivanpah apresenta números favoráveis. Obviamente que o impacto ambiental não se resume a esses números, mas de qualquer forma, é um bom indicador, e muito utilizado em estudos comparativos.

E daí?
Após todos os dados acima, isso permite dizer que Ivanpah é uma usina "ruim"? Não. Os indicadores dela são bons, sua Energia Média e Fator de Capacidade são relativamente elevados (ainda mais considerando a fonte da energia) e a área dela é pequena. Não me incomodam esses números. O que incomoda é todo o hype em torno da usina, com gente falando que ela seria um exemplo a ser seguido, que nossa matriz está toda errada, ou que é um absurdo construir térmicas ou hidrelétricas quando poderíamos ter somente usinas como Ivanpah.
Porém, ao custo dessa usina, essa é uma energia cara. Esse custo é repassado para os consumidores, seja diretamente, na tarifa, ou por meio do aumento do custo de todos os produtos ou serviços que de alguma forma utilizam energia elétrica. No mais, esse entusiasmo que todas as usinas deveriam ser assim esquece (ou ignora) o fato que essa é uma fonte de energia alternativa, que não tem capacidade para funcionar como energia de base para sustentar um grande sistema sem o auxílio de usinas que possam ser despachadas, ou seja, que aumentem ou diminuam sua geração a medida que a demanda aumenta. Assim como Ivanpah não funcionará durante muitas horas da noite, uma usina eólica não funciona sem vento ou uma hidrelétrica a fio d'água não funciona com vazões baixas. 
Na minha opinião, grande parte dessa compreensão errada é que as pessoas tomam o significado de "alternativa" como uma opção em substituição a energia "convencional". Nada mais errado. Na minha opinião, as fontes de energia ditas alternativas (Pequenas Centrais Hidrelétricas, eólicas, térmicas a biomassa, solares) deveriam ser chamadas de fontes de energia complementares, já que elas agregam ao sistema elétrico, porém não formam (nem poderiam formar) a base que sustenta o sistema. 
Em suma, não há nenhum problema em gostar de Ivanpah. Ela é uma usina com muitas virtudes. Porém não tentem fazer dela uma panacéia. Parem de escrever bobagens como "temos que substituir todas as hidrelétricas e térmicas por eólicas, solares, geotérmicas ou outras energias alternativas". Isso pode ser cool nos círculos de ecochatos, pode fazer você se sentir bem consigo mesmo; mas no mundo real, só faz quem fala ou escreve algo assim passar por ignorante.

3 comentários:

  1. Belo artigo. Vc tem razão quanto aos ecochatos, pois não trabalham no setor elétrico, não sabem a diferença entre energia e demanda, mas enchem a mídia esquerdista com um monte de bobagens.
    Veja que o alto custo em si dessa usina, gera uma pergunta: quem está por trás desse investimento, cobrando tão alto?
    Toda nova opção tecnológica é sempre bem vinda, mas porque tão cara, por algo que na verdade nem é novidade?
    Mas que a energia do Sol tem que ser melhor explorada, disso não duvidamos e muito aguardamos.
    Um abraço ao Editor.

    ResponderExcluir
  2. Belo artigo. Vc tem razão quanto aos ecochatos, pois não trabalham no setor elétrico, não sabem a diferença entre energia e demanda, mas enchem a mídia esquerdista com um monte de bobagens.
    Veja que o alto custo em si dessa usina, gera uma pergunta: quem está por trás desse investimento, cobrando tão alto?
    Toda nova opção tecnológica é sempre bem vinda, mas porque tão cara, por algo que na verdade nem é novidade?
    Mas que a energia do Sol tem que ser melhor explorada, disso não duvidamos e muito aguardamos.
    Um abraço ao Editor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ednaldo, tens toda razão ao afirmar que ecochatos em geral falam sobre assuntos que pouco dominam. Eles sequer são obrigados a ser do setor, mas um pouco de estudo sempre é bom. Por isso tomo o cuidado de colocar nos links as fontes dos dados que uso.
      No caso de Ivanpah, a população atendida pela Pacific Gas & Electric e pela Southern California Edison pagarão por isso; sem contar os taxpayers que pagarão pelos subsídios que a usina recebeu.
      Apresentar uma solução mágica é fácil, difícil é achar quem pague por isso. Por isso é um bom negócio usar subsídios governamentais para fazer essas obras que, se fossem feitas pela iniciativa privada, seriam economicamente inviáveis.

      Excluir