quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Ecochato ou bebum? Prefiro o bebum.

Há pessoas que são geniais em algumas atividades e completos idiotas em outras. Como não conheço a obra do cantor Armandinho, não posso dizer se ele é um músico genial; mas como ecochato ambientalista, está na média - e isso não é um elogio. O cantor recentemente postou um desabafo no Facebook que mistura autocomiseração e ambientalismo. Segundo o cantor, uma das causas de sua depressão é a construção de um prédio na frente de sua casa na praia (vejam abaixo). 



Se alguma edificação está prejudicando as casas ao redor, que os agravados procurem o foro ideal para isso, a Justiça. Tem esse direito. Falar que o crime "rola solto" para que os moradores vendam seus terrenos sugere que uma delegacia não é instalada por lobby das construtoras. Contudo, não me parece um bom negócio para uma empresa instalar um empreendimento em um lugar com alta criminalidade, uma vez que isso diminuiria o valor dos imóveis a ser comercializados. De duas uma: ou isso é uma estratégia errada das construtoras ou um raciocínio torto do cantor. Aliás, pelo que conheço da praia, uma delegacia ali atrapalharia significativamente as atividades do povo que se inspira, prende e solta na Praia Brava. Não são poucos.
Não tenho muito a falar sobre a alegação de que a Praia Brava é vítima de "um dos maiores crimes ambientais do planeta". Isso é falta de noção de espaço. Ou o cantor realmente acredita que "sua" praia é todo o planeta, ou precisa de um atlas. Conheço bons professores de geografia que imagino trocariam aulas sobre escala por um CD autografado. 
Armandinho, nascido em Porto Alegre, adotou a Praia Brava em Itajaí/SC como sua "fonte de inspiração", como ele próprio diz. Sua "lógica" é que quem está lá deve ficar, mas quem quer morar lá agora não é bem vindo, especialmente se não tiver dinheiro para comprar um terreno e construir uma casa. Se tiver que morar em um apartamento, melhor comprar longe do Armandinho, para não atrapalhar a inspiração do cantor. Se anos atrás residissem mais "armandinhos" na Praia Brava, provavelmente Armandinho não seria bem vindo lá. Imagino que entre uma inspiração e outra, ele não deve ter pensado nisso. Ou quando a casa de Armandinho foi construída, nenhum animal precisou se refugiar em outro lugar?
Ora, o que faz com que a mudança de Armandinho de Porto Alegre para Itajaí seja legítima, que ele possa desfrutar das belezas da Praia Brava seja uma atitude correta, mas o desejo de outras pessoas morarem lá - ainda que em prédios - seja algo tão desprezível? 
Esse discurso de que "as pessoas devem ter onde morar, desde que não atrapalhe minha vista" é  recorrente em qualquer lugar onde as pessoas desejem viver. Afinal, os Alpes Suíços, a orla de Copacabana, a 5ª Avenida ou a Ilha de Santa Catarina não estão aumentando. A solução? Mais gente em menos espaço, mais prédios, custos mais elevados. Quem quer morar com alguns privilégios trabalha mais, economiza mais, e paga por esses privilégios. Em suma: por mais que incomode Armandinho, cumpridas as exigências da legislação, as demais pessoas que desejam morar na Praia Brava também tem direito de fazê-lo. É isso ou teremos a ditadura dos armandinhos. 
Entendo que Armandinho, face as últimas notícias sobre seu alcoolismo, precise melhorar sua imagem. Defender o ambiente faz bem para a imagem de pessoas públicas. Entre o alcoolismo, depressão e falta de inspiração, legitimamente torço que Armandinho volte a fazer o que faz melhor, e que não precise recorrer a expedientes como esse para aparecer. Nem que seja só pra poupar a mim e aos leitores de um assunto irrelevante como esse.