sábado, 4 de abril de 2015

Combatendo racismo com racismo

Circula nas redes sociais uma campanha da Anistia Internacional que afirma que "77% dos jovens assassinados no Brasil são negros". Resumindo: é mentira! 


Gente que mente
A maioria dos números utilizados em campanhas são falsos. Você se importa? Eu me importo. (Fonte: Facebook da Anistia Internacional.

O percentual é de fato elevado, olhando o número por si só. Contudo, cabe fazer algumas análises, a exemplo do que já fiz com a falácia do "genocídio indígena"
A página da Anistia Internacional com a campanha não apresenta a fonte dos dados utilizados, mas o que achei ali é que eles consideram jovens a população entre 15 e 29 anos. Então utilizei os dados oficiais de mortalidade no Brasil, que são de acesso público e estão disponíveis no site do DataSUS. Segue abaixo os resultados:

Número de óbitos por causas externas - Entre 15 e 29 anos - Grupo CID-10: Agressões.
Cor/Raça
Ano
2010
2011
2012
Branca
6503
6311
6573
Preta
2233
2224
2437
Amarela
27
25
23
Parda
17607
17401
19076
Indígena
50
51
61
Ignorado
1557
1459
1902
Subtotal 15-29 anos
29987
29482
32084
Percentual Preta + Parda
66.16%
66.57%
67.05%
Percentual Preta + Parda + Ignorado
71.35%
71.51%
72.98%

Nota-se que o percentual de óbitos é 10% menor que o número informado pela Anistia Internacional. Mesmo somando os óbitos de cor/raça ignorada aos negros e pardos, ainda não se atinge o percentual informado na campanha.
Segundo o IBGE, no Censo Demográfico de 2010, os negros e pardos eram 54% da população entre 15 e 29 anos. Há uma disparidade de mais de 12% entre o percentual de negros e pardos na população e entre as vítimas de homicídio. Nota-se então que há um argumento válido ali, a partir da análise dos dados estatísticos: negros e pardos são, em relação a sua parcela na população, mais propensos a falecer por homicídio. Então para que apresentar dados mentirosos?
Eu acho uma excrecência separar políticas de segurança pública por cor/raça, renda, ou localização geográfica. A Anistia Internacional, pelo visto não, como pode ser visto em seu site:
"A morte não pode ser o destino de tantos jovens, especialmente quando falamos de jovens negros. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas." [Grifos meus] 
Por que haveria de existir uma distinção entre vítimas de homicídio negras, pardas ou de qualquer outra etnia? Por que no caso especial dos negros a morte não pode ser o destino desses jovens? Ora, a morte de uma pessoa pelas mãos de outra - seja infante, jovem, adulta, idosa, branca, negra, sarará ou o que quer seja - é tão odiosa quanto qualquer outra. Por que os mais de 21 mil homicídios de jovens negros ou pardos tem especial relevância no universo de 56.337 homicídios registrados em 2012? Por acaso os outros 34.828 homicídios importam menos? Por alguma escala macabra "merecem mais" morrer que os jovens negros? 
Ainda no texto acima, há uma tentativa sutil de associar o número de jovens negros mortos a um suposto preconceito contra negros jovens e/ou moradores de favelas. Bom, para evidenciar algum preconceito contra negros ou favelados nos homicídios, é primeiro preciso determinar quantos dos homicídios que vitimam negros ou favelados são cometidos por não-negros e não-favelados. Gostaria que a Anistia Internacional mostrasse os dados que corroboram suas afirmações.
A colocação de que a morte de jovens não pode ser o destino de jovens, especialmente negros, é totalmente infeliz, para falar pouco. Invertam os sinais, e imaginem se alguém escrevesse "A morte não pode ser o destino de tantos jovens, especialmente quando falamos de jovens brancos". Aposto que OAB, Ministério Público, ONGs, alguns ministérios inúteis e até a Anistia Internacional se pronunciariam sobre o caso.
Essa não é uma campanha por menos assassinatos. Essa é uma campanha racialista, por políticas dirigidas, que tratam pessoas de forma diferente por sua cor da pele. Em suma, tão racista quanto o que pretende combater.